sábado, 3 de setembro de 2016

Um paralelo entre as Cruzadas e o terrorismo islâmico


Por James A. Lyons* | Tradução: Equipa CNP — Que o Islão precisa de passar por uma reforma interna, não é apenas uma questão abstrata de teologia, mas um facto que se relaciona directamente aos meios com que o Ocidente deve combater o terrorismo islâmico e ao modo como somos vistos pelo mundo muçulmano. 
Por exemplo, o ISIS, a maior ameaça terrorista no mundo hoje, ao assumir a responsabilidade pelo atentado do ano passado em Paris, condenou os Estados Unidos e os seus aliados como "nações cruzadas". O mesmo fez Osama bin Laden, ao protestar contra "os cruzados e as Nações Unidas", depois de assumir a autoria pelos atentados de 11 de Setembro
A alusão abusivamente indiscriminada às Cruzadas tem a intenção clara de convencer os muçulmanos de que são eles que estão sendo atacados, não nós quem estamos tentando defender-nos da jihad. Mais do que isso, a referência é criada para evocar sentimentos de culpa e derrotismo entre os liberais do Ocidente, que têm vergonha da civilização ocidental e são indiferentes, para dizer o mínimo, à sua sobrevivência. Não surpreende, portanto, que Barack Obama, discursando no ano passado sobre o tema do terrorismo, tenha tentado minimizar o elemento islâmico das barbaridades do ISIS: "Antes que nos consideremos superiores e pensemos que isso se restringe a este ou aquele lugar, lembrem-se que, durante as Cruzadas e a Inquisição, pessoas cometeram actos terríveis em nome de Cristo." 
Vamos revisitar direito a história. As Cruzadas foram uma série de guerras iniciada pelos europeus ocidentais em resposta às devastadoras derrotas infligidas pelos turcos seljúcidas ao Império cristão Bizantino. A Primeira Cruzada aconteceu em 1096 e foi a mais bem sucedida de todas, tomando o domínio de Jerusalém. 
Mas os ganhos foram apenas temporários, requerendo o dispêndio de repetidos esforços para manter os pequenos Estados feudais construídos na Terra Santa. Acre, a última fortaleza dos cruzados, hoje localizada em Israel, veio abaixo no ano de 1291
As Cruzadas, portanto, ocuparam um curto período de pouco mais de dois séculos e meio na história. Elas foram limitadas em escopo e constituíram essencialmente um contra-ataque, visando retomar as terras que tinham sido invadidas pelos muçulmanos. 


Como as Cruzadas se comparam à jihad islâmica? Após a morte de Maomé, em 632, os seus sucessores, os califas — os mesmos que o líder do ISIS, Abu Bakr al-Baghdadi, diz haver ressuscitado — começaram gratuitamente a sua guerra de conquista contra os bizantinos. Dentro de uma década, a jihad havia tomado o território até então cristão do Egipto, bem como a Palestina e a Síria. 
Os exércitos muçulmanos varreram todo o norte da África e chegaram à Espanha em 711, e só foram definitivamente parados na França por Carlos Martel, avô de Carlos Magno, no ano de 732. (Ao mesmo tempo, forças muçulmanas varriam o Oriente, subjugando a Pérsia e alcançando as fronteiras da China.) Repetidos ataques continuaram em todo o Mediterrâneo, incluindo os cercos árabes de Constantinopla e as conquistas de Chipre, Sicília e Creta. 
Motivados pela jihad islâmica e pelo desejo de saquear e escravizar — de modo idêntico ao que faz o Estado Islâmico hoje —, sequer um desses ataques foi defensivo. As terras conquistadas não eram domínios islâmicos livres de ocupação, mas terras cristãs cujos habitantes experimentaram os mesmo horrores por que hoje passam a Síria, o Iraque e, agora, a Líbia: amputações, decapitações, escravidão e exploração sexual (tudo explicitamente autorizado pelo Alcorão). Ao assistirmos os vídeos terríveis do Estado Islâmico decapitando pessoas e escravizando sexualmente mulheres, lembremo-nos de que essas cenas se repetiram milhares de vezes antes: em Jerusalém, no ano de 637; no Egipto, em 639; na Espanha, em 711; e em Constantinopla, em 1453. A única diferença é que hoje há câmeras e comunicação instantânea em todo o mundo. 
A jihad islâmica contra a Cristandade começou mais de quatro séculos e meio antes que alguém sequer ouvisse falar de alguma Cruzada. Os cruzados só detiveram a jihad de 1110 a 1350, um curto período de tempo depois do qual ela foi retomada com força total. 
A maior parte da Ásia Menor — actual Turquia — foi rapidamente subjugada com o fim das Cruzadas. Os guerreiros islâmicos do novo Império Otomano atravessaram a Europa por Galípoli em 1356. Rápida e sucessivamente a jihad se abateu sobre a Grécia, a Bulgária, a Sérvia, a Albânia e o sul da Roménia. 
Constantinopla caiu em 1453. (Isso completou a primeira parte de uma profecia atribuída a Maomé, e citada com paixão pelos jihadistas de hoje, de que primeiro eles tomariam Constantinopla e, depois, Roma.) A Bósnia, a Croácia, a Hungria, a Polónia e o sul da Áustria, todas caíram. Corsários muçulmanos devastaram as costas da Itália, da Espanha, da Sardenha e da Córsega, chegando a alcançar o norte a Irlanda e a Escandinávia. (São também dessa época as batalhas marítimas contra os piratas da Barbária, que permaneceram em actividade até o século XIX.) 
O avanço islâmico só começou a ser seriamente atenuado em 1683, com o fracasso do segundo cerco turco de Viena. Embora a ideologia da jihad ofensiva não tivesse mudado, as suas capacidades não podiam suportar a revolução científica e tecnológica que ganhava espaço na Europa cristã. 
Em suma, a agressiva jihad islâmica foi travada contra os cristãos e durou 450 anos. Por 250 anos, os cruzados cristãos contra-atacaram. Depois que aquele contra-ataque fracassou, porém, uma nova jihad foi conclamada e, ao que tudo indica, ainda está longe de chegar ao seu término. 
Está mais do que claro, portanto, quem são os verdadeiros agressores. Recorrer a um episódio histórico tão distante e particular para sugerir, ainda que remotamente, uma explicação para o que faz o Estado Islâmico hoje, não passa de desonestidade intelectual. 

Fonte: The Washington Times | Tradução e adaptação: Equipa CNP 

[*] Alguns trechos do texto foram modificados, mas, como a maior parte do texto foi traduzida fielmente do original, mantivemos o nome do autor do artigo em inglês.

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