terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Cristianismo é contra a auto-defesa?

Se a acção de vida de Jesus Cristo fosse seguida estritamente (à letra) por todos os homens, não haveria descendência humana; a humanidade acabava, porque Jesus Cristo não teve filhos, e não consta que os Seus apóstolos próximos tivessem tido prole. Quem fizer uma leitura literal do Novo Testamento chega à conclusão de que Jesus Cristo pretendia acabar com a humanidade — o que é um absurdo: como é que Alguém que pretendia a paz entre os homens pudesse querer que a humanidade tivesse um fim imediato?! 

O problema do homem moderno é o de que perdeu a noção de religião transcendental, e depois surgem dislates deste tipo.

O Cristianismo como religião transcendental parte do princípio da superioridade ontológica de Jesus Cristo. Mas o homem moderno concebe a “diferença ontológica” como sinónimo de “hierarquia”, e a hierarquia como sinónimo de “desigualdade” no sentido de “injustiça”. E, por isso, a desigualdade é vista — mesmo por quem se diz de “Direita” — pelo homem moderno como sendo um mal a erradicar. 

Porém, a verdade é que a hierarquia — assim como a disciplina e a ordem — é um valor estético com consequências éticas. A desigualdade injusta não se cura com igualdade, mas antes com uma desigualdade justa [Nicolás Gómez Dávila] que se traduz no princípio de equidade de Aristóteles. 

Um cristão vê em Jesus Cristo, não um ser da sua igualha, mas antes um ser ontologicamente superior; e aceita a superioridade Dele. É isto que um homem moderno, embotado espiritualmente, não compreende; e é isto que faz com que um cristão propriamente dito não pertença verdadeiramente à modernidade. 

O cristão sabe que, sendo Jesus Cristo ontologicamente superior, é-lhe impossível ser igual a Ele; é-lhe impossível seguir literalmente a Sua acção — da mesma forma (analogia) que um jogador amador de xadrez não pode ser, por princípio, um campeão mundial, embora deseje seguir-lhe o exemplo. O cristão reconhece as suas limitações face ao exemplo superior de Jesus Cristo. 

Outra asneira é a que afirma que “Jesus Cristo proibiu isto e aquilo”; a ignorância do homem moderno em relação ao Cristianismo identifica estritamente a religião cristã com a lei de Moisés (Judaísmo) ou com o Alcorão: o homem moderno e ignaro olha as religiões todas por igual. 

Em todo o Novo Testamento, Jesus Cristo nada mais fez do que aconselhar; ora, aconselhar não é proibir. A proibição pressupõe um poder autoritário, ao passo que um conselho é um ensinamento de um Mestre, de um ser ontologicamente superior. Jesus Cristo ensinou e aconselhou os homens, e não fez uso de qualquer poder autoritário. 

Uma visão autoritarista acerca de Jesus Cristo é uma estupidez. A autoridade de Jesus Cristo é uma autoridade de facto, e não uma autoridade de direito; e o homem moderno, em geral, não consegue ver a diferença entre os dois tipos de autoridade. 

Quando Jesus Cristo estava para ser detido pelos romanos, preocupou-se com a segurança e com a integridade física dos Seus discípulos, conforme se pode ler em Lucas 22, 36: 

“(…) agora, quem tem uma bolsa que a tome, assim como o alforge, e quem não tem espada que venda a capa e compre uma”. 

É absolutamente claro que Jesus Cristo se preocupou com a auto-defesa (no sentido da preservação da vida humana) dos Seus discípulos, porque os ameaçava um perigo de morte vindo dos romanos. 

O que o homem moderno não consegue perceber, em Jesus Cristo, é a diferença entre “dar a outra face” em assuntos veniais e materiais, por um lado, e por outro lado a defesa que Jesus Cristo fez do direito à preservação da vida humana (direito à auto-defesa, quando a vida está em perigo). 

Uma coisa é eu dar a outra face quando me insultam, por exemplo; outra coisa é colocar voluntariamente a cabeça no cepo à espera da guilhotina. Jesus Cristo fez a distinção entre as duas coisas, embora Ele próprio — como ser ontologicamente superior — se oferecesse a um sacrifício último que instituiu uma diferenciação cultural que marca a humanidade.


Fonte: perspectivas

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