sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Os macaenses estão preocupados com o seu futuro enquanto identidade?


A Associação dos Macaenses (ADM) vai realizar o seu terceiro colóquio sobre a "identidade macaense" intitulado "Macaenses - O Testemunho para o Futuro" (第三屆土生葡人座談會 - 薪火相傳). Esta edição, que vai ter lugar no anfiteatro do Instituto Politécnico de Macau nos próximos dias 5 e 6 de Dezembro (entrada gratuita), vai debruçar-se sobre a transição do testemunho "do que é ser macaense" para uma nova geração. De acordo com a ADM na pessoa do seu presidente, o advogado Miguel de Senna Fernandes, os mais jovens estão, como dizer?, a cagar-se para o que é isso de "ser de Macau" e "isso coloca em causa o futuro da identidade macaense". Vou deixar para o fim desta entrada a minha justiça, que todos aqueles que me conhecem mais ou menos bem já sabem qual é quando o assunto é "o macaense".
"Se há três anos, no primeiro colóquio que organizámos, estas questões já se colocavam e eram motivo de preocupações, então agora ainda pior", começou por dizer Miguel de Senna Fernandes numa conferência de imprensa realizada anteontem. Depois de um desenvolvimento "muito rápido" de Macau, da sua economia e valores culturais e da entrada de "muitas culturas no território", a grande questão da "identidade macaense" vem dar lugar a uma "outra questão bem mais importante": "como é que vamos passar o testemunho desta identidade aos nossos jovens para que não se percam os valores?" A perda dos valores é "inegável", como por exemplo o facto de já poucos "macaenses" falarem português. "Eu lembro-me de andar na escola e dos meus colegas que falavam mal português serem alvo de chacota até por parte dos professores. Os professores riam-se dele. Os que falavam mal português eram apontados por não o saberem fazer. Isto causou problemas. Eles tinham vergonha. Para que é que vou aprender português, perguntavam-se?", continuou o advogado. "Eu tive o cuidado de dar às minhas filhas a passagem do testemunho do que é ser-se macaense".
O chato é que a malta jovem parece estar mesmo a cagar-se para tudo isso e isso vê-se no pequeno número de participantes com idades até aos 20 anos. A maior parte dos participantes, pertencentes a Macau e Portugal, tem mais de 60 anos, seguindo-se a faixa etária entre os 40 e 49 anos. O advogado desdramatizou a situação: "Não fico admirado que, com esta idade, as preocupações estejam mais viradas para os trabalhos, os estudos e outras coisas. Este não é um tema que se discute numa mesa de café".
Segundo esta reportagem da minha amiga Inês Almeida, do jornal Tribuna de Macau, um inquérito realizado pela ADM indicou que mais de metade dos inquiridos acreditam que a "cultura macaense" (que é na verdade, chamando os bois pelos nomes, a cultura portuguesa de Macau, e já vou explicar, novamente, porquê lá mais para a frente) vai perdurar no tempo, 30% dizem não saber e 25% acreditam que vai desaparecer. Ainda assim, 90% entendem que é importante que a cultura seja transmitida às gerações seguintes.
"A minha mãe era chinesa, falava chinês comigo. O meu pai era macaense, falava português mas sempre disse que devia falar chinês com a minha mãe por respeito e porque estava num sítio onde se falava as duas línguas, mas relembrava-me sempre que a nossa condição de macaense implica falar as duas línguas. Com as minhas filhas repeti o discurso", acescentou Miguel de Senna Fernandes. "Está em causa aproveitarmos o momento para reflectir sobre certas questões. Muitas vezes as pessoas, sem querer, menosprezam questões relativamente à sua própria comunidade". Há uma parte da geração mais nova que "foi educada de uma certa maneira e já não tem a mesma sensibilidade", não estando "tão à vontade com o português". Mesmo alguns membros da comunidade que têm conhecimento da língua, sublinhou, optam por não fazê-lo porque têm medo de "se exprimirem mal". "Muitas vezes essa timidez é uma barreira. Se antes havia essa barreira em relação às pessoas que não são macaenses, agora existe a barreira entre nós e isso não pode acontecer".
E lá continua imensa gente a alimentar a ideia de que existe "uma identidade macaense" como se fosse uma coisa especial e única! Diz a verdade insofismável que os macaenses são as pessoas de Macau, ou seja, as pessoas naturais de Macau, e a esmagadora maioria dos macaenses é e sempre foi chinesa, logo é óbvio que, e uma vez que o português não foi imposto como devia ter sido aqui em Macau durante séculos de colonização e administração portuguesa, a grande maioria dos macaenses não fala a língua de Camões! Repito: a esmagadora maioria dos macaenses (que em chinês é o mesmo que dizer "gente de Macau" - 澳門人) é e sempre foi chinesa! Quando esses cromos falam dos "macaenses" estão-se a referir, como o próprio nome em chinês (澳門土生葡人) diz, aos portugueses nascidos em Macau! O que há efectivamente são diferentes identidades macaenses, sendo a chinesa naturalmente a principal identidade macaense, ou seja, a maior comunidade macaense é chinesa. A comunidade portuguesa de Macau, ou melhor, a comunidade de portugueses de Macau (que não é o mesmo que portugueses que estão em Macau e que não são de Macau), vai continuando a existir enquanto continuarem a nascer e a haver portugueses nascidos em Macau no território e os portugueses de Macau que questionam a sua identidade são todos aqueles que devem ter sido vítimas do desleixo dos seus paizinhos, que não se preocuparam em transmitir a Portugalidade aos seus rebentos. Já agora, em termos legais, os portugueses de Macau - e aí podemos acrescentar as aspas na palavra portugueses se assim melhor entendermos - são cerca de 1/5 do total da população de Macau, sendo a grande maioria desse 1/5 gente étnica e culturalmente chinesa, e com o chinês como a língua materna. A "política extremamente generosa" da atribuição da nacionalidade portuguesa espantou o então governo britânico de Hong Kong, que não deu a mesma abébia à sua colónia.
Depois de ter sido publicada em Macau a lei da nacionalidade, em 1981, para os chineses naturais de Macau (a maioria dos macaenses) a preocupação maior era a manutenção do direito ao passaporte português que era para poderem continuar a viajar à vontade e usufruírem das demais regalias da nossa cidadania, visto que o passaporte chinês é bastante merdoso! A sorte é que agora adquirir a nacionalidade portuguesa tornou-se mais difícil devido à alteração da lei feita em 1994, embora seja permitida a transmissão da nacionalidade aos descendentes, que passa a impor a necessidade de se provar "uma ligação efectiva à comunidade nacional", o que tem prejudicado nomeadamente os cônjuges estrangeiros de gente com nacionalidade portuguesa porque o Ministério Público passou a rejeitar os pedidos se estes não forem "muito bem fundamentados". De acordo com o jornal Ponto Final, um dos casos com mais jurisprudência terminou em 1998 com o Supremo a dar razão ao Ministério Público contra os desejos de uma mulher chinesa residente em Macau casada com um português, ou falso português, e mãe de duas filhas com nacionalidade portuguesa (às custas do pai, claro) porque ela "não conhece Portugal nem a sua história, a cultura e os costumes das suas gentes e não fala a língua portuguesa". Assim, é de esperar que com o tempo os falsos portugueses deixem de existir ou pelo menos sejam cada vez menos.
Para quando um colóquio realizado por filipinos naturais de Macau (澳門土生菲律賓籍人) ou nepaleses naturais de Macau (澳門土生尼泊爾籍人) que também são macaenses como eu? Não consigo mesmo entender porque é que só os portugueses nascidos em Macau é que haveriam de ficar com o direito exclusivo de ser conhecidos por "macaenses". E que dizer das pessoas que dizem que são macaenses sem mesmo terem nascido em Macau, i.e. sem mesmo serem de Macau? Será alguma evolução da espécie? Se calhar o "macaense" é um estado de alma e qualquer pessoa pode sentir-se "macaense", como o Nirvana depois de alcançado com o alinhamento dos chacras. Ele há com cada coisa...

4 comentários:

wind disse...

Bom fim de semana:)

FireHead disse...

Finalmente! Bom fim-de-semana também para ti. :)

Ivan Baptista disse...

Isso quer dizer que, se a tua descendência se se mantiver por ai, falará chinês e o português será esquecido .
Sempre ouvi dizer que na china sê chinês .

FireHead disse...

Não sei porquê. Mesmo que eu venha a ter descendência, eu falo português, tenho o português como língua materna, logo eu terei todo o cuidado de fazer com que a minha descendência aprenda e fale português. Há muitos portugueses que têm aqui filhos, logo estes são macaenses e não deixam de ser também portugueses.

O que tu queres dizer é que em Roma sê romano, mas isso é figurativo. Significa, atendendo aos tempos actuais, que uma pessoa que vai para um país estrangeiro tem que obedecer e cumprir com as leis desse país.