segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os enganados

Já todos passámos por aquele penoso momento em que nos interrogámos se vale ou não a pena dizer a alguém que se está a enganar a si mesmo e que era melhor parar de fazer de conta que está tudo bem. Pior, qualquer ser humano desde que saiu do colo da mãe já passou por aquele cruel instante em que se confrontou a si mesmo com o facto não só de ter sido enganado mas também de ter querido enganar-se.

Até aqui nada de novo: errar é humano e querer persistir no erro também. Daqui para a frente é que a humanidade diverge: de um lado estão aqueles que assumem os seus erros e do outro aqueles que. saltando por cima dos seus erros, invariavelmente culpam os outros por os terem enganado.

Eles nunca erram, as suas intenções são sempre as melhores. Os outros é que os enganam. O desenrolar dos acontecimentos na Grécia tem levado a que muitos daqueles que em Janeiro faziam declarações ditirâmbicas com a vitória da esquerda radical na Grécia agora procurem apagar esse mau momento. Como? Reflectindo sobre o seu erro? Tirando conclusões? Nada disso. Simplesmente culpam o mesmo Syriza e o mesmo governo grego que há meses incensavam. Quem declarou que “A estratégia do Syriza foi perdedora desde o início” ou que “Governo grego foi de uma enorme imprudência” foram respectivamente os mesmos Ricardo Paes Mamede e António Costa que antes declaravam “Syriza já conseguiu mais do que qualquer Governo bem comportado na Europa” e “Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha”.

Deixando para outra oportunidade o destrinçar da confusão entre a táctica e a estratégia que levou o líder do PS e boa parte desse partido a achar que desgastavam o governo português congratulando-se com a derrota estrondosa do partido socialista grego e colando-se a uma vitória da esquerda radical, há aqui uma auto-indulgência que já cansa. A esquerda nunca erra. Desilude-se. Nunca se engana. É enganada. Mesmo quando confrontada com os resultados mais catastróficos, o máximo que se lhes ouve é um desalentado “Foi um sonho que acabou mal.” O facto de muitos dos movimentos de esquerda e, no caso particular de Portugal, o PS acolherem, quais bíblicos filhos pródigos, todos os provenientes da esquerda radical afecta ao PCP acentua esta auto-indulgência. É espantoso como gente culta, viajada e informada declara, quando confrontada com as atrocidades do comunismo que apoiou, que as desconhecia ou mais perturbantemente ainda que o partido, entendendo aqui por partido o PCP, as enganava. Na verdade eles quiseram enganar-se. Não foram os únicos mas em geral os outros admitem que foram eles mesmos que se quiseram enganar. E assim o viver de enganos que devia ser um factor de reflexão, torna-se numa circunstância que poetiza aquele que a invoca.

A direita erra igualmente mas felizmente não lhe é permitido o discurso do sonho que acabou em desengano, da ilusão que se desfez, da utopia que não foi. É erro. É crime. É disparate. E ponto final. E esta pequena enorme diferença face ao erro explica muita coisa. Explica por exemplo que à esquerda o anunciado seja sempre mais importante que os resultados. Explica também que, por essas bandas, aqueles que se tinham como exemplo ontem se tornem inconvenientes dias depois sem que ninguém estranhe tal transfiguração. E sobretudo torna social e mediaticamente aceitável a quase candura com que pessoas alinhadas nessa espécie de reiki da política que dá pelo nome de progressismo dão conta da sua irresponsabilidade.

Neste campo o caso mais óbvio na crise grega é o de Paul Krugman que em Janeiro escrevia “O problema com os planos do Syriza poderá ser que não sejam suficientemente radicais” ou “O resto da Europa deveria dar uma oportunidade [a Tsipras] para acabar com o pesadelo do país” e que agora declara surpreendido, como quem olha para o ar pesado da cor que escolheu para as paredes da sala, com a presente crise grega: “Talvez tenha sobrestimado a competência do Governo grego”. Mais espantosamente ainda o Nobel da Economia confessa “Não calculei que pudessem tomar uma posição sem ter um plano de urgência”. Não só é espantoso que Krugman não tenha calculado que esse plano não existia como que não tenha percebido que a existir um plano desses iria fazer da Grécia um estado pária sob tutela da China, da Rússia ou do Irão. Como a Rússia não tem dinheiro, a China tem mais com que se preocupar e o Irão anda atarefado a negociar o fim das suas próprias sanções, nenhum desses países se mostrou interessado em arranjar (mais) problemas com a UE, para mais por causa da pouco confiável Grécia. Logo, o plano B, com prisão do governador do banco central grego incluído (já agora o que ia acontecer à liberdade de imprensa?) ficou (por enquanto) na gaveta.

Há anos que isto é assim: as almas progressistas do ocidente apoiam os mais diversos radicalismos por esse mundo fora (perturbante mas profundamente verdadeira a descrição efectuada por Gabriel Mithá Ribeiro do papel desempenhado pelos brancos portugueses”revolucionários” na perseguição aos brancos portugueses”colonialistas” e na destruição da economia e da sociedade, no caso em Moçambique mas que foi comum a outros países africanos). Depois, quando os resultados do desastre se mostram óbvios eles dizem-se surpreendidos. Declaram que foi uma falsa boa ideia. Que nunca tinham pensado que ia ser assim. Ou, pior, que a sua utopia sempre generosa não é compatível com a espécie humana invariavelmente egoísta, ressalvada a tribo ou o povo que nesse momento os faz crer que agora é que vai ser. Nunca é mas isso para eles não interessa nada.


PS. Desde já manifesto o meu absoluto apoio à reivindicação de Heloísa Apolónia de nos debates televisivos ter um tratamento equiparado ao dos outros líderes, nomeadamente Paulo Portas. Eu sei que já escrevi que os Verdes nunca foram a votos e que, como tal, não podem ser considerados um partido no verdadeiro sentido dos termos. Nada disso me interessa agora e volto já com a palavra atrás. Desde que a equidade no tratamento aos Verdes leve a que seja agendado um debate Heloísa Apolónia versus Jerónimo de Sousa. Não sei aliás como vou conter a impaciência até que chegue esse momento. Desde o frente a frente Soares-Cunhal em 1975 que o País não vê nada de tão esclarecedor!

 
Helena Matos
in Observador

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