terça-feira, 27 de setembro de 2016

O leigo macaense que estuda teologia

O jornal Hoje Macau publicou ontem uma notícia que fala da existência de um jovem macaense de etnia chinesa que decidiu estudar teologia como leigo, isto é, sem tencionar seguir a vida religiosa. Trata-se de Andrew Leong que está neste momento a fazer o mestrado na área da religião na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, depois de ter cursado gestão hoteleira e mais tarde frequentado o curso de teologia na Faculdade de Estudos Cristãos da Universidade de São José aqui em Macau. É muito certamente o único macaense nessa área, tendo-a escolhido por gosto.
Católico e especialista no Antigo Testamento, Andrew concedeu uma entrevista por e-mail ao citado jornal macaense de língua portuguesa. "Interessam-me muito as áreas da religião, como a liturgia e a teologia moral, que nos diz como cada um deve viver a sua vida na Terra. Gosto também da história da Igreja, pois sem sabermos o passado comum da fé em comunidade, ninguém pode conhecer a sua identidade. Gosto ainda da teologia sistemática e dos estudos bíblicos, já que tudo começa aí. (...) Se tivesse de escolher uma área, seria os estudos da Bíblia. Não só porque tudo começa nas Escrituras, mas informa-nos como formulamos a liturgia, a teologia moral e como devemos avaliar a história da Igreja. Estudar teologia nunca foi um objectivo quando era criança, nem sequer um sonho de carreira, nada disso. A minha primeira licenciatura foi em gestão hoteleira, e ganhei alguma experiência nessa área. Contudo, quando acabei o curso, soube que havia uma faculdade de teologia criada recentemente e o director da altura convenceu-me a tirar o curso. Demorei um Verão inteiro até tomar uma decisão. A grande motivação surgiu porque durante toda a minha infância e adolescência a fé cristã não me foi apresentada de uma maneira sistematizada e coerente, e muitos dos meus colegas e amigos até achavam algo irracional e inaceitável. Mas para mim desde o início que fazia algum sentido. Então decidi seguir esse percurso", disse Andrew.
A Bíblia para Andrew "É como se fosse uma grande pintura que se observa de diferentes ângulos, onde se encontra sempre algo de diferente. É também como um espelho, em que cada um se pode encontrar. É como uma janela, onde podemos olhar para o passado, presente e futuro". O seu objectivo agora é tornar-se académico em teologia em Macau, terra que serviu de base de expansão do Cristianismo na Ásia. "Quero contribuir de alguma forma e promover mais os estudos em religião. Como católico, e uma vez que temos um novo bispo (Stephen Lee Bun-sang), que tem energia e muitos planos, penso que posso contribuir com o que for necessário, sobretudo na promoção da leitura da Bíblia. Quero promover um ambiente de leitura para que as pessoas saibam como recebemos a Bíblia, e também focada para pessoas de outras religiões, sobretudo para aquelas que têm diferentes perspectivas. Gostaria que o público de Macau soubesse mais sobre a fé cristã, a qual está muito ligada à história da nossa região".
Andrew entende que em Macau, com excepção, como é claro, dos que querem seguir a vida religiosa, a maioria das pessoas estuda em áreas que garantem saídas profissionais, como a hotelaria, o Direito ou economia porque as pessoas são muito centradas na carreira e sobretudo porque na cultura chinesa "a religião é exactamente o oposto da ciência, e os discursos religiosos parecem-se com contos de fadas e lendas. Por isso é tido como algo que não se pode estudar ou explicar. Esse ponto e a mente prática das pessoas são duas das razões pelas quais as pessoas de Macau não estão interessadas em estudar esta área".
O budismo mesclado com o paganismo chinês é a principal seita religiosa em Macau, mas o Catolicismo faz parte da identidade macaense e sempre desempenhou um papel relevante no território. Apesar de ser a religião de apenas uns 5% da população de Macau, a Igreja Católica tem muita influência a empenha-se muito em áreas como a assistência social e a educação. A diocese de Macau, criada em 1576 pelo Papa Gregório XIII, possui muitas instituições de serviço social, onde se incluem creches, lares de idosos, centros de reabilitação para deficientes físicos e mentais ou lares para crianças de famílias monoparentais e/ou problemáticas. Na área da educação, existem em Macau mais de 30 estabelecimentos de ensino católicos e há também a Universidade de São José, ligada à Universidade Católica Portuguesa.
O Catolicismo é por excelência uma característica inegável da Portugalidade. Em 1654, por ordem de D. João IV, o nome oficial de Macau passou a ser "Cidade do (Santo) Nome de Deus de Macau, não há outra mais leal", uma vez que no período compreendido entre os anos de 1580 e 1640, em que Portugal esteve sob domínio espanhol, Macau continuou a içar lealmente a bandeira portuguesa até 1999, até ser entregue à República Popular da China.

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