sábado, 3 de setembro de 2016

Actualidade: o que os outros dizem

Uma criança britânica morrer num ataque de granada é apavorante, mas isso ter acontecido num subúrbio de Gotemburgo deverá despedaçar algumas ilusões sobre a Suécia. O assassinato de Yuusuf Warsame, de oito anos, na semana passada, encaixa-se no padrão que os suecos têm vindo lentamente a encarar ao longo dos anos. Ele era de Birmingham, visitava os seus familiares, e foi apanhado naquilo que a polícia sueca crê ser uma guerra de gangues dentro da comunidade somali. No ano passado, uma menina de quatro anos foi morta por um carro-bomba em Malmö, outra aparente vítima da violência dos gangues. Durante anos, a Suécia via-se a si própria como uma "superpotência humanitária" - fazendo a diferença no mundo não fazendo guerras mas oferecendo abrigo às vítimas das guerras. Os refugiados chegaram aqui em números extraordinários. Nos últimos 15 anos, uns 650 mil requerentes de asilo chegaram à Suécia. Dos 163 mil que chegaram no ano passado, 32 mil conseguiram asilo. A Suécia aceita mais refugiados comparando com a proporção do tamanho da população do que qualquer outra nação do mundo desenvolvido - quando se trata de dar abrigo, ninguém faz melhor. Mas quando se trata de integrar os que aceita (ou procurar alojamento, escola e assistência médica gratuita para eles), nós não o fazemos tão bem (Tove Lifvendahl, The Spectator).

Se um dia se escrever um Declínio e Queda da Civilização Europeia, estou certa que lá no meio estarão estes dias, em que os ocidentais (ia dizer idiotas úteis, felizmente parei a tempo) apreciadores das suas liberdades se dedicaram a incentivar e a promover e, até, a glorificar o uso de burkinis – e burqas e niqabs, que vêm atrás, bem como toda a ideologia islâmica de supressão de direitos e liberdades (não) usufruídos pelas mulheres muçulmanas, de que estas peças de roupa são indissociáveis. Num momento em que, questões legais à parte, toda a sociedade europeia devia unir-se no repúdio pela subalternização e maus tratos às mulheres das comunidades muçulmanas da Europa, punindo socialmente os símbolos da opressão, o que sucedeu foi a aceitação de facto da redução da esfera de liberdade dessas mulheres. Os islâmicos – que andam há décadas a usar as liberdades que lhes são concedidas no Ocidente contra os ocidentais – devem ter celebrado com festa rija esta capitulação. Houve até gente que só posso qualificar de doentia que garantiu que burqa e burkini eram mesmo símbolos de liberdade das mulheres islâmicas, porque assim se podiam movimentar. Que necessitem de se cobrir para se deslocarem, pelos vistos, não é nenhuma restrição à liberdade. Aqui copio Richard Martineau (Ana Cristina Leonardo traduziu-o): os negros americanos afinal são uns ingratos, deviam estar devidamente comovidos com a permissão de andarem nos transportes públicos nos bancos de trás e de estudarem nas escolas públicas mais manhosas (Maria João Marques, Observador).

O que importa neste caso não é o que aconteceu, mas o modo como aconteceu. Dilma Rousseff não foi derrubada na rua, por soldados ou por manifestantes. Caiu onde devia cair, nas câmaras legislativas, num processo que o Supremo Tribunal Federal julgou regular. Para alguns dos seus fãs, dentro e fora do Brasil, isso parece não fazer diferença. Mas faz toda a diferença. As formalidades foram respeitadas e Dilma pôde defender-se das acusações. É assim uma democracia, embora possamos não gostar do resultado. Há quem diga: as acusações contra Dilma não deviam bastar para depor um presidente. Mas bastaram. O sistema brasileiro é assim. O presidente da república, eleito por sufrágio universal, é o chefe do poder executivo, mas precisa de uma maioria no congresso para governar. Dilma perdeu essa maioria, e formou-se uma maioria contrária, que invocou as “pedaladas fiscais” para a destituir. Se fosse na Europa, dir-se-ia que Dilma caiu por falta de apoio no parlamento (61 votos contra 21 no Senado) (Rui Ramos, Observador).

Que os cidadãos sejam obrigados a aprovisionar a despensa com mantimentos, para no mínimo dez dias, é uma medida que as autoridades alemãs pretendem implementar no país. Isto para fazer face a um qualquer acontecimento futuro. Seja ele qual for. Cenários não faltam. Desde um ataque em larga escala de doentes mentais a um cataclismo natural qualquer. Ou, mas isso sou eu a desconfiar, são os extraterrestres que estão para chegar. O que não deve constituir problema. Tal como os maluquinhos a que a Europa abriga aos milhões, serão certamente criaturas bondosas, simpáticas e pouco dadas a causar aborrecimentos. O melhor é não ligar a isso de açambarcar comida – deve ser coisa para ajudar as grandes cadeias de distribuição – e preparar mas é a placa com os dizeres “Welcome Et's” (Kruzes Kanhoto, Kruzes Kanhoto).

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