sábado, 10 de setembro de 2016

A herança de Mao Tsé-Tung


Volvidas quatro décadas sobre a morte do imperador comunista, o culto de Mao Tsé-Tung teima em não desaparecer da China. “Não devemos desistir do marxismo-leninismo e do pensamento de Mao Tsé-Tung, caso contrário seremos desprovidos da nossa essência” – adverte o presidente Xi Jinping, por muitos considerado o genuíno herdeiro político do homem que ainda hoje vigia a praça de Tiananmen com o seu olhar emoldurado. 
O presidente vitalício do Partido Comunista Chinês (PCC) faleceu no dia 9 de Setembro de 1976, aos 82 anos, (faz hoje 40 anos) e logo chegaram a Pequim as mensagens de condolências de vários países, incluindo Portugal. O Ocidente vergava-se ao legado do homem que unificara a China e fizera frente às superpotências da guerra fria. 
No telegrama de condolências enviado ao Primeiro-Ministro chinês, o Presidente da República Portuguesa, Ramalho Eanes, considerava Mao “um dos maiores estadistas deste século”. O Primeiro-Ministro, Mário Soares, via no obreiro da revolução comunista chinesa o “construtor de uma nova sociedade no coração da Ásia”, que por essa razão merecia o “respeito internacional”. 
Também o ministro dos Negócios Estrangeiros, Medeiros Ferreira, alinhava no panegírico geral ao considerar que o estratega chinês tinha sido um “estadista que deixará o seu nome e a sua obra ligados ao progresso da humanidade”. 
Aparentemente, estas seriam posições oficiais inusitadas para os mais altos representantes de um país que não mantinha relações diplomáticas com a RPC. Mas o contexto histórico justificava-as plenamente. 
Na realidade, desde Janeiro do ano anterior que Portugal tinha cessado as relações diplomáticas com a República da China (Taiwan), ao mesmo tempo que mostrava disponibilidade para oficializar o relacionamento com Pequim. Um imperativo a que não era alheia a delicada questão de Macau. 

O mestre da propaganda 

Mao Tsé-Tung foi responsável pela morte de milhões de compatriotas, vítimas de um ditador que nunca abdicou de espalhar o apocalipse. Jung Chang e Jon Halliday estimam em 70 milhões o número de chineses que pagaram com a vida os desvarios de Mao, superando “qualquer outro líder do século XX”. 
Exímio na eliminação dos seus rivais, Mao cultivou sempre uma vocação sádica no relacionamento com os camaradas de Partido e até com a própria família. 
Como é que se explica, pois, que o sanguinário Mao tenha sobrevivido incólume a quatro décadas de domínio do PCC e 27 anos aos comandos da RPC? E que alguns políticos, estudantes e intelectuais ocidentais, tenham visto nesta figura tirânica e brutal, o farol de uma ideologia supostamente humanista no Extremo Oriente? 
Talvez porque o homem com “uma cabeça de granito, onde se destaca uma verruga”, como o caracterizou Estaline, fosse igualmente um consumado sedutor, capaz de doutrinar correligionários e adversários sem grande esforço. Após a implantação da China Popular, Mao montou uma oleada máquina propagandística ao seu regime, servindo-se, entre outros, do jornalista americano Edgar Snow. O ópio dos intelectuais, denunciado por Raymond Aron, também passava pelo consumo em larga escala da propaganda maoísta exportada para a Europa. 
O ponto alto desta ofensiva de charme ocorreria já no ocaso político do líder histórico chinês, quando este conseguiu cativar a dupla Nixon/Kissinger para a sua teia, dando-lhes a ilusão de estarem a manipular a China no combate ideológico face à União Soviética. Os americanos dormiram com o inimigo e acordaram reféns da estratégia geopolítica chinesa. Em consequência, os chineses colaram-se ao lado vitorioso da guerra fria com esforço mínimo. 

Regresso ao futuro 

Em 1976 o livrinho vermelho de Mao Tsé-Tung estava nas mãos de 800 milhões de chineses. Em 2016 as tipografias chinesas estão ocupadas com outro livro sagrado – a Bíblia. Se Mao ressuscitasse, este seria apenas um dos muitos paradoxos que iria encontrar. 
No plano político-ideológico teria mais facilidade em reconhecer a China actual. Os planos quinquenais continuam em vigor, a economia é em grande parte estatizada, o seu legado ideológico é ciosamente cultivado nas escolas do PCC e nas Constituições do Partido e do Estado. Mao iria reconhecer com facilidade as purgas políticas em curso e as campanhas de rectificação ideológicas. O apertado controlo sobre o Exército Popular de Libertação e a condenação pública de figuras de topo do PCC. 
Em contrapartida, a outra face da China do século XXI faria de Mao um desajustado extraterrestre. Aquele que foi um dos países mais igualitários do mundo é hoje um dos mais desiguais. O PCC, renascido pela mão de Deng Xiaoping, revelou-se particularmente eficaz na criação de riqueza. A luta de classes foi substituída pela conquista de bens de luxo para a crescente classe média. Mas a China socialmente assimétrica ainda alberga 70 milhões de desfavorecidos a viverem abaixo do limiar da pobreza – uma população equivalente à de França. 
O visceral antiburguês Mao ficaria espantado ao verificar que a “teoria da tripla representatividade”, do ex-Presidente Jiang Zemin, franqueou as portas do PCC aos inimigos figadais da revolução chinesa – os capitalistas. Perplexo ficaria também por constatar que a ancestral influência de Confúcio na sociedade chinesa foi plenamente recuperada. Paradoxalmente, a matriz do PCC é agora confucionista-leninista. 
“A procura da verdade nos factos” é um dos eixos principais do “pensamento de Mao Tsé-Tung”. A verdade é que Mao deixou como herança política o caos que tanto apreciava, entregando os destinos da China ao “bando dos quatro”, onde se destacava a sua prepotente mulher. Nunca se inquietou com o seu legado, tendo hostilizado todos os potenciais sucessores, incluindo Deng Xiaoping, que só conseguiria alcançar o poder em 1978. 
Mas desde 1981 que a memória política de Mao Tsé-Tung não está imaculada. No Verão desse ano o Comité Central do PCC reconheceu que Mao cometeu “erros graves”, embora os relativizasse face ao conjunto da sua obra revolucionária. Deng resolveu a questão para a posteridade: Mao esteve 70% certo e 30% errado. 

O novo timoneiro 

Quatro décadas após a morte de Mao Tsé-Tung, a China é comandada por outro educador das massas. Xi Jinping é visto como um líder autoritário, que consolidou o seu poder graças a purgas que não poupam os mais altos escalões do Partido e das forças armadas. 
Determinado a fazer história, Xi lançou uma incessante campanha anticorrupção, reforçou o controlo do partido sobre o EPL e não hesitou em projectar o crescente poder da China além-fronteiras. O seu “sonho chinês” tem como objectivo transformar a China numa nação forte, capaz de ultrapassar os EUA. 
Mas é na terapia ideológica, imposta às elites e população, que Xi mais se assemelha a Mao. Quer repor a fidelização vertical, tendo o Partido-Estado como eixo motriz da sociedade chinesa. 
Em 1975, Xi Jinping, então com 22 anos, foi autorizado a regressar do exílio no campo para retomar os estudos. Trinta e sete anos mais tarde, esse jovem oriundo de uma família que não escapara à insanidade maoísta, revelar-se-ia o líder mais forte e obstinado desde Deng Xiaoping. 
A China transitou de um Estado utópico para um Estado estratégico. Xi Jinping terá de ser muito mais do que uma mera réplica de Mao para conquistar o seu lugar de honra na história da China. 


Luís Cunha
Investigador no Instituto do Oriente (ISCSP/Universidade de Lisboa). Ex-residente em Macau

Fonte: Tribuna de Macau

2 comentários:

Afonso de Portugal disse...

Eu acho que este postal revela uma nostalgia neocolonialista e um certo sentimento sinofóbico, pá! Então agora vamos exigir à China que seja uma democracia de facto? Não pode ser, pá, temos de respeitar as culturas alheias!

FireHead disse...

A China não pode ser uma democracia. São mais de 1300 milhões de habitantes. Se o governo não tem mão de ferro, como é que pode governar um país assim, ainda por cima com a dimensão que tem e também com tantos conflitos internos?

O Partido Nacionalista Chinês, que tinha tudo para vencer a guerra interna da China contra os comunas e mesmo assim foi derrotado, também não permitiu a democracia depois de se ter refugiado em Taiwan, onde ainda permanece. Só com o tempo é que Taiwan se democratizou. Nada indica que se os nacionalistas tivessem continuado no poder no continente chinês que iria haver de facto uma democracia. Por muito que Sun Yat-Sen fosse adepto da democracia...

A democracia é uma coisa que não funciona em todos os lados. Temos o exemplo flagrante do Médio Oriente. Os anormais do Bush, Obama e Hillary, na sua ânsia de mandarem abaixo os regimes ditatoriais que controlavam os diferentes países árabes e seguravam as pontas por lá (no caso do Bush a pretexto das armas nucleares no Iraque), promoveram guerras contra os ditadores, deu-se a Primavera Árabe e depois foi a merda que ainda podemos assistir: crise dos refugiados, Estado Islâmico, rebeldes na Síria, destruição, caos...

E diz agora a Hillary que é fundamental acabar com o líder do Estado Islâmico, ela que juntamente com o Obama armaram e deram força aos jihadistas??