segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Uma falsa ameaça

É absurdo atribuir à extrema-direita xenófoba e racista os recentes atentados na Europa. Embora os autores dos atentados alegadamente exibam um passado de militância na extrema-direita xenófoba e racista, e movimentos da extrema-direita xenófoba e racista os reivindiquem, é preciso não confundir estes elementos radicalizados com a extrema-direita xenófoba e racista em geral. Felizmente, a vasta maioria da extrema-direita xenófoba e racista é constituída por gente pacífica que não se revê em acções violentas. Uma ocasião, aliás, até vi um líder da extrema-direita xenófoba e racista condenar estes excessos. 
A maior ameaça que o continente hoje enfrenta não advém da extrema-direita xenófoba e racista, mas justamente dos populistas que, aqui e ali, apelam à respectiva discriminação e, quiçá, erradicação. É fundamental que o discurso do ódio não prevaleça sobre a concórdia entre indivíduos de todas as crenças e convicções. Uma civilização tolerante não pode tolerar uma existência subordinada à desconfiança e à mentira. Falemos da mentira. 
Há um factor que desmonta imediatamente a "narrativa" (desculpem) que responsabiliza a extrema-direita xenófoba e racista pelas matanças em curso. De acordo com as informações reveladas pelas autoridades, é notório que os protagonistas de esfaqueamentos, degolações, explosões e atropelamentos em série pertencem a um de dois grupos: a) sujeitos com problemas psiquiátricos, leia-se doentes carenciados da atenção que, evidentemente, a medicina não lhes prestou; b) sujeitos com problemas de integração, leia-se vítimas de governos incapazes de responder com políticas de apoio aos anseios dos filhos da extrema-direita xenófoba e racista. Vamos acusar a extrema-direita xenófoba e racista pelas proezas de pobres malucos e marginais que nós, enquanto sociedade, não soubemos tratar e acolher? Não faz sentido. 
O que faz sentido? Antes de mais, importa conciliar discursos. Se defendemos que as chacinas não estão relacionadas com a extrema-direita xenófoba e racista, é chato, principalmente para a coerência argumentativa, defender em simultâneo que a extrema-direita xenófoba e racista se limita a reagir a intervenções abusivas dos poderes ocidentais. 
Depois, para não publicitar os ideais de organizações autodenominadas de extrema-direita xenófoba e racista - e que, escusado acrescentar, não representam a extrema-direita xenófoba e racista - é necessário proibir a divulgação de notícias de novos atentados. Sempre que um infeliz, convencido de que é membro da extrema-direita xenófoba e racista, aviar meia dúzia de transeuntes a golpes de catana, os média terão de guardar segredo do caso sob pena de pesada multa. Mesmo as testemunhas sobreviventes estarão obrigadas ao silêncio, o que, dado que à cautela o melhor é nem chamar os paramédicos, não será difícil. Por fim, o Estado enviará às famílias dos falecidos uma cartinha a informá-las de que os ditos emigraram sem bilhete de regresso. 
Se a coisa correr bem, os assassinos/doentes/estigmatizados em causa continuarão a dizimar quem lhes surgir pela frente, numa sucessão de incidentes inexplicáveis que, em prol da convivência sadia, serão ignorados sem piedade. Em vez de perder tempo com irrelevâncias, o jornalismo passará exclusivamente a cobrir a engraçada caça aos Pokémons, a pré-época da bola e, mediante reportagens na praia, a curiosa circunstância de o Verão ser uma época quente. É verdade que, pelo meio, haverá centenas ou milhares de inocentes mortos, e um pavor sem remédio. Porém, é um pequeníssimo preço a pagar pelos valores multiculturais, multi-ideológicos e multiusos que nos definem. A extrema-direita xenófoba e racista merece o nosso respeito. E um abraço amigo. 

Sexta-feira, 29 de Julho 

Dois socialistas, uma comédia 

Enquanto comentava o atentado de Munique, Barack Obama largou uma graçola sobre a emancipação das filhas. O vasto currículo de participações em talk shows e rábulas cómicas habilitou-o a proezas assim. Infelizmente, nem sempre o habilita a discorrer sobre assuntos graves. E se é verdade que o sr. Obama deixa a América em estado razoável, convinha apurar se isso acontece graças ao seu intervencionismo ou apesar dele. As almas com "consciência social" acham que é graças a ele, e não graças ao país que, para pavor dos sensíveis, é bem capaz de eleger Trump. Contas feitas (55 mil dólares de PIB per capita; desemprego abaixo dos 5%), os americanos são umas bestas. 
Fica por explicar a aversão que os sensíveis daqui dedicam a Trump. O homem parece acreditar piamente nos benefícios do investimento estatal, do incentivo ao consumo e das obras públicas. O homem é protecionista na economia. O homem, avesso a aventuras militares no exterior, é caseirinho em política externa. O homem desconfia da Europa e da NATO. O homem desfila a dose bastante de anti-semitismo. O homem tem todas as características de um socialista, restando apenas apurar se, como o socialista a que possivelmente sucederá, está a brincar com coisas sérias. Ou se, como os nossos socialistas, leva a sério brincadeiras. 
O facto é que, lá e cá, Trump é odiado pelos seus semelhantes e, sobretudo lá, venerado por quem devia odiá-lo. O mundo é um lugar complicado. E, frequentemente, desagradável.

31 de Julho de 2016

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