terça-feira, 23 de agosto de 2016

"Dialecto" cantonês integrado no curso de mandarim


As autoridades comunistas de Pequim e os falantes nativos do mandarim em geral costumam considerar o cantonês um dialecto entre muitos outros dialectos falados na China. O mandarim, esse sim um verdadeiro dialecto nascido em Pequim, tem uns 100 anos de história e foi transformado na língua oficial chinesa pelas autoridades comunistas e imposto de forma autoritária em todo o país, desprezando e fazendo desaparecer muitos dialectos chineses. Daí eu ter ficado surpreendido com o facto de agora o Instituto Politécnico de Macau (IPM) ter introduzido o ensino do "dialecto" cantonês, que é uma língua milenar e possui escrita própria (coisa que um dialecto de verdade não tem), no curso de ensino do mandarim. O argumento usado é que o conhecimento de cantonês ajuda a abrir mais portas e porque o cantonês é a forma de comunicação por excelência em Macau, Hong Kong e a província de Cantão.
Na cerimónia de abertura de mais um ano lectivo no IPM e que juntou diversos estudantes de várias procedências (Portugal, Brasil, Cabo Verde, etc.), os alunos partilharam algumas das suas expectativas e opinaram também sob a inclusão do cantonês no currículo, embora com carácter facultativo. "A introdução da disciplina de cantonês no plano de estudos correspondeu a uma opção muito clara que a escola tomou de introduzir o idioma que é mais falado pelos residentes de Macau", disse Luciano de Almeida, o director da Escola Superior de Línguas e Tradução do IPM, ao jornal Hoje Macau. "Há uma aposta clara no sentido de aproximação com a terra e com a identidade de Macau. Ainda são apenas duas disciplinas, mas Roma e Pavia não se fizeram num dia e direi que o difícil foi introduzir as duas primeiras". Também o próprio presidente do IPM, Lei Heong Iok, reconhece a importância do "dialecto" cantonês, por causa da sua influência em vários países, embora salientando também que o mandarim é o mais solicitado por "razões óbvias".
O professor brasileiro de ensino básico Daniel Dutra veio para Macau para integrar o curso e considerou o cantonês "um acréscimo porque dentro de vários dialectos que se falam na China é, com certeza, o principal". Sem o cantonês dificilmente consegue-se comunicar com a população local, logo "é importante nestes quatro anos (de curso) sabermos como conversar com as pessoas que são de cá através da sua língua natal". Outro brasileiro, Artur, que estudava Engenharia Ambiental e abandonou o curso por causa desta nova aventura, sublinhou que o cantonês "apanha cerca de 30% da China contando com Hong Kong e Macau". Também Januário, igualmente do Brasil, deixou o seu curso de Relações para vir para Macau tirar este curso no IPM. "Quem não faz negócios, hoje em dia, com a China é porque está parado". Januário considera que "dado estarmos num sítio onde o cantonês é a língua falada, claro que há a necessidade de o aprender para justamente conseguir comunicar aqui". Segundo ele, Hong Kong e Macau são dois territórios extremamente desenvolvidos e que tendem a crescer na sua perspectiva e, por isso, "só há vantagens em aprender este dialecto". 
Da parte de alguns estudantes portugueses que já tinham começado a estudar mandarim é que parece não haver muita vontade de estudar também cantonês. É o caso do Gonçalo que é de Leiria, que só pensaria em estudar cantonês depois do curso de mandarim. Também Pedro Monteiro pensa da mesma maneira, pois estudar mandarim e cantonês juntos "seria um factor de confusão". Já para Tiago Martins, licenciado em Engenharia Informática, vale a pena estudar também cantonês porque "É uma forma de comunicar e conhecer melhor esta cultura (de Macau)" e "além de enriquecimento de CV, faria possível abrir mais portas mesmo em Portugal, porque na área das tecnologias estamos a lidar com pessoas da China Macau e Hong Kong e a barreira da linguagem é muito grande".
Enfim, só de pensar que o pai da nação moderna chinesa, o grande doutor Sun Yat-sen, era completamente contra o mandarim por ser uma língua pouco digna e elaborada, tendo feito campanha pelo cantonês como língua oficial da China... bem, na verdade da República (Nacionalista) da China e não da República Popular (Comunista) da China. Só é pena o seu sucessor no Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang), Chiang Kai-shek, e os seus camaradas não se terem preocupado com este pormenor, daí em Taiwan, o que sobrou actualmente da República da China, infelizmente também se falar apenas o mandarim, traíndo essa pequena grande herança do fundador da república chinesa em 1911 e que era amigo dos portugueses. Se hoje em dia existem energúmenos que dizem que o mandarim é que é "a língua" chinesa e o cantonês é um dialecto é porque o comunismo fez e continua a fazer de facto um bonito serviço de destruição da identidade chinesa.

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