segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A ponte entre Portugal e a Coreia do Sul


A sul-coreana Lee Jin Sun, ou melhor, Jin Sun Lee, de 47 anos, trabalha na secção cultural da embaixada sul-coreana em Lisboa, vive em Portugal desde 1992 e é uma verdadeira ponte entre Portugal, onde a comunidade coreana ronda as 200 pessoas, e o seu país graças ao excelente português que fala mas também ao modo como se tornou numa síntese das duas culturas.
Os coreanos, tal como os chineses, usam o apelido familiar antes do nome próprio, mas ela adoptou a maneira ocidental porque "É mais fácil assim". E, além de gostar da couve fermentada à moda coreana (kimchi), adora também bacalhau com natas. O seu marido, que é português, chama-se José e foi-lhe apresentado por um amigo comum coreano há mais de 20 anos atrás em Lisboa, é médico, já foi algumas vezes à Coreia do Sul, diz umas palavras em coreano e aprecia comida oriental. "Ele gosta muito", disse Jin, que tenta sempre ir duas vezes por ano fazer um piquenique com a comunidade coreana em Portugal e que conta também com descendentes luso-coreanos.
Jin nasceu em Gwangju, uma cidade que ficou marcada por uma violenta repressão militar contra manifestantes pacíficos antes da Coreia do Sul se democratizar, mudou-se para a capital Seul com a família e começou a estudar português depois de um professor lhe dizer na universidade que saber inglês "era básico e devia acrescentar outra língua". Em 1992 esteve a trabalhar para a embaixada portuguesa em Seul e ganhou uma bolsa do Instituto Português do Oriente para estudar na Universidade de Lisboa. "Primeiro pensei ir para o Brasil estudar. Tinha um professor que era de Minas Gerais e também conhecia filhos de emigrantes coreanos no Brasil. Mas ao mesmo tempo tinha fascínio pela Europa e acabei por escolher Portugal", contou. De Portugal já conhecia o fado apesar de não saber o que era por causa da Dulce Pontes, que via na TV. Jin chegou mesmo a cantar o "Barco Negro à frente dela" para a Amália Rodrigues ouvir quando a mais famosa fadista portuguesa de sempre esteve em Seul para um concerto privado num hotel. Conhecia também os navegadores Vasco da Gama ou Bartolomeu Dias, nomes que se aprende nas escolas, e também o Benfica e o Eusébio, pois o povo sul-coreano adora futebol. Em 1998 trabalhou no pavilhão da Coreia do Sul na Expo e acabou por receber uma proposta da embaixa sul-coreana em Lisboa. Hoje trabalha na secção cultural da embaixada e é a responsável pela organização de eventos como a Semana Cultural Coreana, que vai da gastronomia ao cinema, ou o concurso de K-pop, um estilo musical próprio da Coreia do Sul (uma espécie de cópia do J-pop, do Japão) que já tem fãs em todo o mundo, inclusive em Portugal, pois há uns tempos atrás houve uma competição de K-pop no Teatro Maria Matos que reuniu cerca de 500 pessoas e os vencedores conseguiram um lugar na final na Coreia do Sul.
O seu país, a terra da Samsung, LG ou Hyundai, enche-a de orgulho. "Admiro muito a Coreia. Partimos das cinzas, depois da guerra. E em poucas décadas ficámos uma potência tecnológica. E também uma democracia", sublinhou, admitindo, porém, o receio de que se esteja a perder os valores tradicionais, a tal "ética confucionista" que é interpretada como a explicação para o êxito do país. Seja como for, voltar para lá não está nos seus planos porque sente-se bem em Portugal.

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