quarta-feira, 20 de julho de 2016

“Salazar era um democrata-cristão convicto”

Porque é que na sua opinião não faz sentido falar de Salazar como “fascista”? Isto é uma heresia para a esquerda. 

Para essa esquerda, o combate antifascista foi o grande pilar da sua vida. Há uma legitimidade que foi adquirida nesse combate, foi reconhecida depois do 25 de Abril e ajuda a explicar em parte a força que essa esquerda ainda tem em Portugal, que já não tem em muitos países ocidentais. Esse combate foi travado, houve mártires, tem de ser lembrado... Há uma ideia de que o verdadeiro Estado Novo era o dos anos 30. Eu acho que não é bem assim. Acho que o Estado Novo dos anos 50 é tão importante e tão verdadeiro como o dos anos 30. O que aconteceu foi que Salazar teve de gerir Portugal com as pessoas que o cercavam, que estavam sempre a mudar. E as ideias que animavam essa gente que constituía o Estado Novo estavam sempre em evolução. Nos anos 30, a corrente fascista dentro do Estado Novo vai-se afirmando, vai-se tornando cada vez mais forte, e Salazar – se se quer manter no poder, como queria – tem de governar de acordo com ela. Na altura são criadas as instituições emblemáticas do Estado Novo, a Mocidade, a Legião. Mas Salazar aceita a Mocidade e a Legião e imediatamente começa a desgastá-las. O ramo ideológico a que Salazar pertencia, a democracia-cristã, tinha inimigos semelhantes ao fascismo: o comunismo, o parlamentarismo. Tinham soluções semelhantes, que o fascismo foi buscar à democracia-cristã, o corporativismo. E estavam dispostos, quando necessário, a recorrer à força. Havia um entendimento entre estas duas correntes, que se uniram em parte, mas depois separaram-se. Salazar não queria um Estado fascista. Se Portugal se tornasse um Estado fascista, ele nunca poderia ser o líder porque não tinha um passado que lhe permitisse ser um Duce ou um Führer. Ele não era um soldado, não tinha combatido, não era um orador, não tinha o poder de cativar. Franco tinha andado aos tiros em Marrocos, era um oficial exemplar. O Rolão Preto dizia: “Este homem não pode ser, ele não entusiasma ninguém.” 

Nos primeiros escritos, Salazar aceita a democracia… 

Salazar era um democrata-cristão convicto. A ideia de democracia-cristã vai evoluindo ao longo dos tempos e graças à revolução russa vira mais à direita ainda, porque os perigos se tornam muito maiores. Dá uma guinada para a direita mais radical e Salazar acompanha. Salazar faz parte desta corrente, mas não é por ser um cristão-democrata que é chamado ao poder. É por ser o professor de Finanças, que vai endireitar as Finanças. 

Acha que Portugal já se libertou completamente desses 48 anos? 

Muitos dos males que são atribuídos a Salazar vinham de trás, da República, da monarquia constitucional. No século XIX éramos um país pobre, no século XX um país pobre e continuamos a ser um país pobre. Há coisas que se calhar são inultrapassáveis.


Filipe Ribeiro Menezes,
Professor de História na National University of Ireland, Maynooth

in Jornal i, 2010

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