sexta-feira, 1 de julho de 2016

Como manipular as pessoas para aceitarem qualquer coisa, inclusive o canibalismo


“Ontem, o RT traduziu para o espanhol um sugestivo artigo do colunista russo Evgueni Gorzhaltsan publicado em ADME. Gorzhaltsan aplica a «janela de Overton» a um caso extremo: o mecanismo de aceitação pública do canibalismo. Creio, porém, que não seja muito complicado substituir o exemplo por outros: divórcio, aborto, casamento gay, pederastia, incesto, eutanásia, etc. 
Joseph P. Overton, vice-presidente do Centro Mackinac de Políticas Públicas, postulou que, dentro de determinada área de política pública, por exemplo a educação, só um pequeno conjunto de políticas, princípios ou medidas se considera politicamente aceitável. Esse conjunto, «janela», não se define pelo que prefiram os políticos, mas pelo que crêem poder apoiar sem pôr em risco a sua eleição. Essa janela pode estar mais aberta ou ser mais larga, conforme a metáfora que se prefira, conforme mudem as ideias da sociedade que os elege. 
Overton atribui os graus de aceitação das ideias públicas a estas categorias: 

- Inconcebível ou impensável 
- Radical 
- Aceitável 
- Sensato 
- Popular 
- Política 

Gorzhaltsan coloca o exemplo radical de como converter em aceitável a ideia de legalizar o canibalismo, passo a passo, desde a fase em que se considera uma acção repugnante e impensável, completamente alheia à moral pública, até converter-se numa realidade aceite pela consciência das massas e pela lei. Isso não se consegue mediante lavagem cerebral directa, mas por técnicas mais sofisticadas, que são efectivas graças à sua aplicação coerente e sistemática, sem que a sociedade se dê conta do processo. Reproduzo o «sugestivo caminho» ao canibalismo legal proposto por Gorzhaltsan segundo as categorias de aceitação de Overton (negritos meus, redação original). 

Primeira etapa: do impensável ao radical 

Actualmente, é claro, a questão da legalização do canibalismo encontra-se no nível mais baixo de aceitação na «janela de possibilidades» de Overton, já que a sociedade considera-o um fenómeno absurdo e impensável, um tabu. 
Para mudar essa percepção, pode-se, amparando-se na liberdade de expressão, transferir a questão à esfera científica, pois para os cientistas normalmente não há temas tabus. Portanto, é possível celebrar, por exemplo, um simpósio etnológico sobre rituais exóticos das tribos da Polinésia e discutir a história do tema de estudo e obter declarações autorizadas sobre o canibalismo, garantindo, assim, a transição da atitude negativa e intransigente da sociedade a uma atitude mais positiva. 
Ao mesmo tempo, é preciso criar algum grupo radical de canibais, embora exista só na Internet, que seguramente será notado e citado por numerosos meios de comunicação. Como resultado da primeira etapa de Overton, o tabu desaparece e o tema inaceitável começa a ser discutido. 

Segunda etapa: do radical ao aceitável 

Nesta etapa, é preciso continuar citando os cientistas, argumentando que ninguém pode negar-se a ter conhecimentos sobre o canibalismo, já que se alguém se negar a falar disso será considerado um hipócrita intolerante. 
Ao condenar a intolerância, também é necessário criar um eufemismo para o próprio fenómeno, para dissociar a essência da questão de sua denominação, separar a palavra de seu significado. Assim, o canibalismo converte-se em ‘antropofagia’ e, mais tarde, em «antropofilia». 
Paralelamente, pode-se criar um precedente de referência, histórico, mitológico, contemporâneo ou simplesmente inventado, mas o mais importante é que seja legitimado, para que possa ser utilizado como prova de que a antropofilia pode, em princípio, ser legalizada. 

Terceira etapa: do aceitável ao sensato 

Para essa etapa, é importante promover ideias como as seguintes: «o desejo de comer pessoas está geneticamente justificado», «às vezes alguém tem de recorrer a isso, em circunstâncias extremas» ou «o homem livre tem o direito de decidir o que come». Os adversários reais desses conceitos, isto é, o cidadão comum que não quer ser indiferente ao problema, intencionalmente se convertem para a opinião pública em inimigos radicais, cujo papel é representar a imagem de psicopatas enlouquecidos, opositores agressivos da antropofilia, que incitam a queimar-se vivos aos canibais, junto com outros representantes das minorias. Especialistas e jornalistas, nesta etapa, demonstram que durante a história da humanidade sempre houve ocasiões em que as pessoas se comiam umas às outras, e que isso era normal. 

Quarta etapa: do sensato ao popular 

Os meios de comunicação, com a ajuda de personalidades famosas e de políticos, já falam abertamente da antropofilia. Este fenómeno começa a aparecer em filmes, letras de música popular e vídeos. Nesta etapa, começa a funcionar também a técnica que supõe a promoção das referências às personagens históricas de destaque que praticavam a antropofilia. 
Para justificar os partidários da legalização do fenómeno, pode-se recorrer à humanização dos criminosos, mediante a criação de uma imagem positiva deles, dizendo-se, por exemplo, que eles são as vítimas, já que a vida os obrigou a praticar a antropofilia. 

Quinta etapa: do popular ao político 

Esta categoria implica em já começar a preparar a legislação para legalizar o fenómeno. Os grupos de pressão consolidam-se no poder e publicam enquetes que supostamente confirmam uma alta percentagem de partidários da legalização do canibalismo na sociedade. Na consciência pública estabelece-se um novo dogma: «A proibição de comer pessoas está proibida». 
Esta é uma técnica típica do liberalismo, que funciona em razão da tolerância como pretexto para a proscrição dos tabus. Durante a última etapa do «movimento das janelas» de Overton do popular ao político, a sociedade já sofreu uma ruptura, pois as normas da existência humana foram alteradas ou foram destruídas, com a adopção das novas leis. 
Gorzhaltsan conclui que o conceito de «janelas de possibilidades», inicialmente descrito por Overton, pode ser extrapolado para qualquer fenómeno e é especialmente fácil de aplicar numa sociedade tolerante, em que a chamada liberdade de expressão se converteu em desumanização e onde, ante os nossos olhos, são eliminados, um após outro, todos os limites que protegem a sociedade do abismo da autodestruição.” 


(Tradução do blogue Christe Eleison de um artigo publicado no espanhol De Lapsis.) 
http://www.christeeleyson.com 
http://infocatolica.com/blog/delapsis.php

2 comentários:

Ivan Baptista disse...

Mas isso também já se pratica nas civilizações ditas superiores

https://pt.wikipedia.org/wiki/Armin_Meiwes

«O sabor da carne, segundo Meiwes, era "semelhante ao da carne de porco, um pouco mais amarga e mais forte, mas um sabor muito bom»

Não és tu que gostas da carne de porco ? AAAA que delicia :)

FireHead disse...

Epá, mas esse tipo é um criminoso! No dia em que o canibalismo passar a ser normal, eu espero já cá não estar. :)

Gosto, ou melhor, adoro carne de porco! O porco é o único animal omnívero que eu como. :P