domingo, 19 de junho de 2016

Há ambiente de medo e pressão na função pública de Macau?

Na edição de anteontem do jornal Hoje Macau saiu um artigo que dá conta do medo que reina na função pública local. Alguns funcionários públicos dizem que têm chefes inflexíveis que só ouvem "amigos" e prejudicam um local que deveria ser bom.


O senhor Ku, que já é funcionário público há 10 anos, defende que trabalhar na função pública "É horrível! As pessoas não imaginam o que é trabalhar nos departamentos do Governo. Basta ir perguntar às pessoas, é normal que ninguém queira falar, mas as famílias, a sociedade sabe: não é bom trabalhar na função pública. O que reina, entre os funcionários, é o medo. Não podemos dizer nada, não nos é dada a hipótese de expormos as nossas ideias, darmos as nossa opiniões. Já para não falar das queixas. Se o fazemos sofremos consequências, já todos ouvimos histórias dessas e muitos de nós já sentiram as consequências na pele. O meu trabalho é bastante metódico. Escrevo muitos documentos. O nosso sistema informático é antigo, e não há vontade de actualizar, temos de trabalhar com o que há. Não é raro na escrita as vezes darmos erros, normalmente os softwares dão aviso de erro. O nosso não, portanto torna-se ainda mais comum que os documentos possam ter, por vezes, alguns erros. Aconteceu-me comigo, várias vezes. E com os meus colegas. Éramos constantemente repreendidos por uma coisa que podia ser facilmente resolvida. Resolvi apresentar uma sugestão à direcção para instalar um dicionário no nosso software e resolver o problema. Fui castigado, tiraram-me três dias de vencimento alegando que eu tinha errado. Não ouviram a minha sugestão e continuam a acontecer erros. Isso nota-se, por exemplo, nos comunicados à imprensa, ou em qualquer outro documento interno".
O funcionário público Lao disse que uma colega sua, que estava grávida, "era alvo de berros e da fúria do chefe. Todos os dias eram berros e mais berros. Muitas vezes lá ia ela para a casa de banho chorar. Um dia depois de uma sessão de berros foi para a casa de banho uma vez mais, mas demorou muito. Fomos ver o que se passava, estava desmaiada no chão. Infelizmente perdeu o bebé".
Outro funcionário público, Leong, afirmou que "Nós que trabalhamos no terreno sabemos mais do que eles (chefes) e como vamos dar uma opinião ou uma sugestão se eles são inflexíveis? Não querem ouvir? Só se for amigo da pessoa, ou filho de alguém importante. Todos os dias vamos para o trabalho com medo. Se erramos vamos ouvir berros, é-nos tirado parte do ordenado". Segundo ele, falar para a comunicação social é sempre "um grande problema" e a participação na vida social e política é melhor manter bem longe. "Sabemos que temos consequências se formos para as manifestações", frisou, acrescentando que o melhor é ficarem longe dessas coisas para garantirem a renovação do contrato de trabalho.
Um outro funcionário, este anónimo, afirmou que "Às vezes em jantares de trabalho e convívios há um espião, o 'dois cinco' ('i hm', como se diz em cantonês), enviado pelos chefes para tentar saber coisas. Nós pensamos que estamos num ambiente de amigos e até podemos desabafar sobre qualquer coisa, ou criticar os chefes e o espião vai contar tudo. Temos sempre de ter cuidado. Depois fazem-nos a vida negra".
Longe vão os tempos em que eram os portugueses a mandar no território, algo que deixou saudades porque o sistema "era muito melhor". "Com os portugueses podíamos debater assuntos, dar opiniões, havia estímulo, agora não, é mais chinês, ordem e respeito ao chefe", apontou um dos funcionários que conta com mais de 32 anos de serviço. António Katchi, ex-funcionário público, jurista e docente de Administração Pública no Instituto Politécnico de Macau (IPM), explicou a possível mudança de comportamento: "Depois da transferência do exercício da soberania, Macau continuou a ter um regime político local formalmente semelhante, mas subordinado agora a um regime político nacional estalinista putrefacto, o qual reforçou aqui o poder da sua velha parceira de negócios, a oligarquia local. Tendo em conta este pano de fundo, creio podermos considerar compreensível - o que não significa 'aceitável' - a evolução negativa que se registou, quer na faceta liberal do regime político de Macau - que está permanentemente sob ameaça e sofre frequentes facadas -, quer no ambiente interno da função pública".
O deputado José Pereira Coutinho, presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM), não se mostrou nada admirado quando confrontado com os casos, pois a ATFPM recebe "uma média de 50 casos por dia". "É o prato de cada dia", afirmou. "Os trabalhadores da função pública sofrem muitas pressões desnecessárias, deixou de existir um diálogo honesto de olhos para olhos entre superiores e inferiores. A maioria dos trabalhadores são considerados como máquinas. Isto resulta pelo facto de que as pessoas escolhidas para cargos de direcção, e chefia, terem sido escolhidos sem preparação. Isto porque são, normalmente, amigos de amigos".
Mas então se o funcionalismo público de Macau é assim tão mau, como dizem estes funcionários públicos, porque é que continuam a ser funcionários públicos e porque é que toda a gente quer entrar para a função pública? É por causa dos elevados salários, dos horários fixos e também da pouca carga de trabalho, pois claro. No caso destes queixosos, é a estabilidade da família que os faz ouvir e calar. "Não há ordenados como na função pública. Como vamos alimentar as nossas famílias?", perguntou Lao.

5 comentários:

Fatyly disse...

Bom domingo amigo

Beijocas

FireHead disse...

Bom domingo também para ti. :)

Beijinhos.

Ivan Baptista disse...

Assim se vê a força do PC ( de Macau )

Ivan Baptista disse...

Pê Xê Cê :)

FireHead disse...

Ainda não se sente assim muito, pelo menos directamente. Mas estou em crer que mais cedo ou mais tarde Macau ficará semelhante à China e que nem sequer vai ser preciso esperarmos até 2049.