quarta-feira, 4 de maio de 2016

Um moralista em cada esquina

Sempre apreciei programas de apanhados. O que eu ria com as esparrelas esgalhadas pelo Joaquim Letria ou pelo Nuno Graciano! Mas chegava sempre ao fim com uma certa insatisfação. "Sim, isto dispõe bem, mas como é que ajuda a transformar a sociedade?" Foi preciso esperar até esta semana para a SIC elevar o género a outro patamar. O ‘E se fosse consigo?’ não é só diversão para toda a família, é pedagogia social. São apanhados moralistas. 
Numa esplanada, a filha apresenta o namorado preto ao pai, que reage com racismo. Depois, entrevistam-se os outros clientes do café sobre o que é que acharam e – a questão essencial – porque é que não intervieram. Considera o programa – e bem! – que não chega não ser racista, é preciso ser evangelizador de racistas. De facto, que país é este em que não interrompemos uma conversa íntima se um dos participantes é troglodita? Deixamos que a educação e o respeito pela privacidade alheia se sobreponham ao dever de confrontar e corrigir quem pensa diferentemente. 
O que se passou neste primeiro episódio foi vergonhoso. É lamentável que ninguém se tenha levantado e dito ao pai racista: "Sua besta! Vou ao AKI adquirir alcatrão e penas!". E, no mínimo, dizer ao rapaz: "Jovem africano, peço desculpa por este meu co-caucasiano. Tenho duas filhas e faço muito gosto que acasales com ambas. E mesmo com a minha esposa. Como está a tua agenda? Não moro longe. Já agora, quanto calças? Toma os meus ténis de marca, faz mais sentido ficares tu com eles. Vocês são atletas naturais". 
‘E se fosse consigo?’ pode ser o início de uma campanha de requisição civil de activistas. Há que instituir um SMO, um serviço moralista obrigatório, e formar brigadas de vigilantes sociais para repreender condutas censuráveis. Vigilantes supervisionados, por sua vez, por fiscais de vigilantes, para ver se estão a espiar e a censurar como deve ser. Tudo à paisana. Vizinhos a espiarem vizinhos, filhos a controlarem pais, patrões a inspeccionarem empregados. 
Nos próximos episódios, dedicados a outros comportamentos desviantes em pastelarias, espero ver os portugueses mais colaborantes, a admoestarem dissidentes em prol da educação colectiva. Na mesa ao lado contam-se anedotas de loiras? Intervenham e exijam anedotas sem género. Ao balcão está um skinhead com uma tatuagem de uma suástica? Repreendam. Não só pelo nazismo, mas também pela tatuagem, que pode infectar e custar caro ao SNS. Um cliente toma café com açúcar? Impeçam, pois um obeso cafeinado é um AVC em potência. Outro coloca uma embalagem de sumo no caixote do lixo orgânico? Advirtam: reciclagem mal feita causa ciclones. Outro mastiga torrada de boca aberta com os cotovelos na mesa? Interrompam, não aceitamos glúten, nem falta de maneiras a comer. Agora somos todos operários de engenharia social. O sonho molhado da Pide. 

Prince, escapaste de boa 

E se um músico lançasse agora esta canção: "Não digas palavrões, baby / não me impressionas / nem deves flirtar, querida / eu sei tirar a minha própria roupa / está sossegada, deixa comigo e mostro-te como nos vamos divertir"? 
Exacto: machismo escandaloso. Felizmente para Prince, quando as redes sociais descobrirem, será tarde para exigirem que se cale. O mundo já terá ouvido o ‘Kiss’ milhões de vezes e estará irremediavelmente infectado de sexismo. Em 1986, quando a canção foi escrita, era aceitável. Agora, é misoginia a precisar de um boicote e de um hashtag. 

Se Sócrates não ganhasse o dinheiro, não o gastava 

Em entrevista à Antena 1, José Sócrates disse que nunca aceitaria ser Primeiro-Ministro sem ter ganho as eleições. No fundo, José Sócrates sugere que seria incapaz de se apropriar de algo que não tivesse sido ele a ganhar legitimamente. 
Se não é dele, ele não se comporta como se fosse. Honra seja feita a José Sócrates, um homem que se recusa a utilizar algo que não foi obtido por si. É por isso, por esta irrepreensível postura ética, que ninguém acredita que os milhões de euros com que Sócrates tem vivido não sejam dele. 

Não há bela, recatada e do lar sem senão 

Há 6 meses, a esquerda portuguesa dizia – e bem – que o facto de não ter ganho as eleições não era impedimento para o PS governar, havia legitimidade constitucional. Agora, apesar de o impeachment ser constitucionalmente justificado pela hipótese de crime de responsabilidade, fala em golpe no Brasil. 
A esquerda portuguesa também diz que Sócrates tem os direitos intactos, uma vez que é apenas suspeito de corrupção. Já os políticos brasileiros suspeitos de corrupção são, forçosamente, culpados. 
A esquerda portuguesa, paladina dos direitos das mulheres, ataca agora a mulher de Michel Temer, porque vive de uma forma julgada inaceitável pelo feminismo ortodoxo. 
Realmente, o acordo ortográfico é muito esquisito. Há palavras que devem ter mudado de significado. Coerência, por exemplo.


23 de Abril de 2016

2 comentários:

Lura do Grilo disse...

Um verdadeiro artista este Quintela: bem diferente do populismo do outro colega.

FireHead disse...

Pode crer. Não lhe acho muita piada, nem a ele nem ao Ricardo Araújo Pereira, mas este pelos vistos tem mais classe a escrever. O grande defeito do José Diogo Quintela é ser lagarto, embora não necessariamente anti-benfiquista, ao passo que aquele que deve ser a única virtude do RAP é o facto dele ser benfiquista.

Já diz o ditado que ninguém é perfeito; perfeito só Deus. Uma entidade na qual o RAP não acredita apesar de ter andado a estudar em instituições católicas. A ironia também faz parte da vida.