sexta-feira, 13 de maio de 2016

Os Pais da Igreja e o paganismo


Alguns cépticos afirmam que a primeira comunidade cristã foi fortemente influenciada pela cultura pagã em torno do Império Romano – que todo o sistema de crença cristã foi remendada por ensinos colectados das "religiões concorrentes" da época. Uma variante dessa afirmação popular entre os cristãos não-católicos é que a Igreja começada por Jesus Cristo permaneceu pura no início, mas depois adoptou lentamente crenças pagãs, especialmente durante e após o tempo do imperador Constantino, no início do século IV. Estas alegações não poderiam estar mais longe da verdade. A crença pagã predominante no Império Romano era contrária à mensagem cristã, e isso é evidenciado pelos escritos dos primeiros cristãos que demonstram uma visão de total desprezo do politeísmo e idolatria pagãos, assim como o facto histórico de que os romanos proibiram o Cristianismo em graus variados até a época de Constantino. 

O desprezo dos primeiros cristãos pelas crenças pagãs 

Uma razão pela qual sabemos que os primeiros cristãos não tinham interesse em emular as crenças das religiões circundantes da época pode ser encontrada na maneira como eles escreveram sobre elas. A partir destes escritos, torna-se claro que eles viam as práticas dessas religiões como abomináveis. Enquanto há montanhas de exemplos que podem ser dados para ilustrar este ponto, vamos concentrar-nos em apenas alguns. Além do nome atribuído à Epístola de Mateto a Diogneto, não se sabe muito sobre o autor. A mais antiga estimativa da data de composição baseada em evidência textual coloca-a em alguma época na primeira metade do século II. Sobre a utilidade da adoração pagã, Mateto diz: 

"Purificado de todos os preconceitos que se amontoam em sua mente; despojado do teu hábito enganador, e tornado, pela raiz, homem novo; e estando para escutar, como confessas, uma doutrina nova, vê não somente com os olhos, mas também com a inteligência, que substância e que forma possuem os que dizeis que são deuses e assim os considerais; não é verdade que um é pedra, como a que pisamos; outro é bronze, não melhor que aquele que serve para fazer os utensílios que usamos; outro é madeira que já está podre; outro ainda é prata, que necessita de alguém que o guarde, para que não seja roubado; outro é ferro, consumido pela ferrugem; outro de barro, não menos escolhido que aquele usado para os serviços mais vis? Tudo isso não é de material corruptível? Não são lavrados com o ferro e o fogo? Não foi o ferreiro que modelou um, o ourives outro e o oleiro outro? Não é verdade que antes de serem moldados pelos artesãos na forma que agora têm, cada um deles poderia ser, como agora transformado em outro? E se os mesmos artesãos trabalhassem os mesmos utensílios do mesmo material que agora vemos, não poderiam transformar-se em deuses como esses? E, ao contrário, esses que adorais, não poderiam transformar-se, por mãos de homens, em utensílios semelhantes aos demais? Essas coisas todas não são surdas, cegas, inanimadas, insensíveis, imóveis? Não apodrecem todas elas? Não são destrutíveis? A essas coisas chamais de deuses, as servis, as adorais, e terminais sendo semelhante a elas. Depois, odiais os cristãos, porque estes não os consideram deuses." 

Este argumento – de que os pagãos adoravam obras mortas da arte – era comum entre os primeiros apologistas cristãos. Santo Atanásio, em sua refutação de crenças pagãs chamada "Contra os pagãos" critica os pagãos por não considerarem que o que eles estavam a adorar não eram realmente deuses, mas "a arte do escultor". A recusa por parte dos cristãos em aceitar as crenças e o modo de culto dos pagãos romanos levou à outra acusação contra eles: o ateísmo. Em sua obra do século II, "Primeira Apologia", São Justino o Mártir, explica: 

"Então, somos chamados ateus. Bem, nós realmente nos proclamamos ateus em relação ao Verdadeiro Deus, o Pai de justiça e temperança e outras virtudes, que é sem mistura do mal."  

São Justino admite que os cristãos se recusam a reconhecer a existência de deuses pagãos, mas a sua refutação do paganismo não termina aí. Ele continua a distanciar as crenças dos cristãos ainda mais longe: 

"Não veneramos os mesmos deuses que vós e não oferecemos libações e gorduras aos mortos, não colocamos coroas nos sepulcros, nem celebramos sacrifícios sobre eles. No entanto, sabeis perfeitamente que os mesmos animais, por alguns são considerados deuses, por outros feras e por outras vítimas para sacrifícios. Em segundo lugar, porque homens de toda raça, que antes cultuávamos a Dionísio, filho de Sêmele, e Apolo, filho de Leto, deuses que por seus amores perversos fizeram coisas que, por decoro, nem se podem nomear; os que dentre nós adoravam a Perséfone e Afrodite, que foram aguilhoados de amor por Adónis e cujos mistérios ainda celebrais, ou Asclépio, ou algum outro dos chamados deuses, agora, apesar de sermos ameaçados com a morte, desprezamos a todos eles por amor a Jesus Cristo. Consagramo-nos ao Deus ingénito e alheio a toda paixão. O Deus em quem acreditamos não se dirigirá, aguilhoado de amor, a uma Antíope, nem a outros do mesmo estilo, nem a Ganimedes, nem terá que ser desatado, com a ajuda de Tétis, por aquele famoso centimano, nem de se preocupar para apagar esse favor com Aquiles, filho de Tétis, e perder uma multidão de gregos em troca da concubina Briseida. O que fazemos é compadecer-nos daqueles que praticam tais coisas e sabemos bem que os responsáveis por eles são os demónios."  

Os cépticos afirmam que outros capítulos da "Primeira Apologia" de Justino admitem semelhanças entre as crenças cristãs e pagãs, mas essa interpretação demonstra um mal-entendido do ponto que ele está a tentar fazer. O seu argumento gira em torno da ideia de que existem elementos de verdade nas filosofias dos pagãos, mas a plenitude da verdade não está contida em qualquer um deles. Esta plenitude só pode ser encontrada, como Justino afirma, na fé cristã. 

A perseguição romana e os Pais da Igreja 

Uma das posições tácticas da "Primeira Apologia" de Justino é apontar a inconsistência da regra romana de lei sobre os cristãos. Por exemplo, no capítulo 21, Justino aponta que os pagãos acreditam que Júpiter teve muitos filhos enquanto os cristãos acreditam que Jesus era o filho de um Deus verdadeiro, mas apenas os cristãos foram perseguidos por suas crenças. Após uma inspecção mais próxima do recorde histórico, descobri que os paralelos de Justino eram bastante abrangentes. A história de Jesus não tem nada em comum com as histórias dos chamados "filhos de Júpiter", por exemplo. Mas a coisa mais importante que podemos tirar dos escritos de Justino e outros Padres da Igreja primitiva é que os cristãos acreditavam que a adoração pagã era demoníaca por natureza, e não para ser emulada – mesmo que pudesse ter facilitado as perseguições romanas. 

Adopção do paganismo depois de Constantino? 

Enquanto os cépticos ateus afirmam que o paganismo era parte do cristianismo desde o início, alguns cristãos afirmam que a verdadeira corrupção começou com o imperador Constantino em torno do ano 325. Mas, apesar do facto que cristãos daquela época estavam mais preocupados em refutar heresias, em seus escritos podemos encontrar a mesma atitude em relação a crenças e práticas pagãs que tinham sido comuns entre eles nos séculos anteriores. Depois que o imperador Teodósio I se afastou do paganismo, os visigodos tomaram Roma no ano 410. Uma ideia começou a circular entre as pessoas que os velhos deuses tinham tomado mais cuidado com eles do que o Deus cristão. Isso inspirou Santo Agostinho a escrever o seu clássico "A Cidade de Deus" contra os pagãos. Este é talvez o melhor exemplo de uma refutação total desta época. 

Conclusão

Todas essas evidências em conjunto apresentam uma boa defesa. Se formos acreditar que o paganismo teve uma influência tão grande sobre o Cristianismo como alguns afirmam, então devemos também acreditam que os Pais da Igreja – todos os que enfrentaram a possibilidade da pena de morte por suas crenças – falaram contra os cultos romanos enquanto ao mesmo tempo se dedicavam secretamente a eles. 


Tradução: Emerson de Oliveira

8 comentários:

Curioso disse...

Quantos visitantes únicos seu blog recebe diáriamente ,Firehead ?

FireHead disse...

Visitantes únicos? Não sei. Só sei que, baseado nas estatísticas fornecidas pelo Blogger, o meu blogue teve:

656 visualizações ontem
865 anteontem
1176 no dia 10
1371 no dia 9
1236 no dia 8
1107 no dia 7
e 856 no dia 6

Anónimo disse...

A igreja hoje em dia tem muitos tiques pagãos: idolatria, sobretudo com o culto mariano e toda a espécie de santos e santinhos e adoração de imagens esculpidas. O 25 de dezembro não corresponde ao nascimento de Cristo, mas sim a Saturnalia pagã, se bem que neste caso a igreja ainda tem desculpa porque precisavam de uma data comemorativa. Na questão da morte, os cristãos e muçulmanos seguiam o costume judaico do enterro dos mortos, nunca a cremação. A cremação era vista como abominação e sinal evidente de paganismo. A igreja actualmente também aceita parcialmente (embora não todos na igreja) a evolução das espécies de Darwin, contrariado assim todo o Genesis.

FireHead disse...

Idolatria? Idolatria significa ter ídolos, que significa deuses. O que os católicos fazem com os santos é veneração, que não é o mesmo que adoração, pois só se pode adorar a Deus. O Credo começa de forma explícita: "Creio em UM só Deus". Um santo não é o mesmo que um deus, pois o deus é o fim em si mesmo e o santo é um meio para o fim. Nenhum católico minimamente consciente diz que adora os santos, pois estes são intercessores, e não divindades como os deuses dos pagãos.

Maria não é nenhuma deusa e só os burros é que pensam que os católicos a divinizam. Ela própria, por exemplo nas suas aparições em Fátima, perguntou assim aos pastorinhos: "Queres consagrar-vos a Deus?" Se fosse de facto uma deusa, ou um ídolo, teria antes perguntado se os pastorinhos queriam consagrar-se a ela, tsk tsk...

As imagens não são coisas proibidas por Deus. Para que já leu a Bíblia percebe que a proibição da criação das imagens não é absoluta, mas sim relativa: depende da finalidade das imagens. Se as imagens forem de ídolos, ou seja, para adoração, são proibidas. Se for para veneração, não. Basta vermos os exemplos bíblicos da serpente de bronze que foi próprio Deus que mandou fazer - e que foi posteriomente destruído por Josué depois do povo ter passado a cultuá-la como se fosse um ídolo, caindo no pecado da idolatria - ou as imagens dos querubins (anjos) na Arca da Aliança. Se as imagens são mesmo proibidas, como se explica então estes dois casos?

O 25 de Dezembro pode não te sido a data de nascimento de Jesus, embora haja dados que apontem para que tenha sido. Ainda assim isso não é algo que tire o sono aos cristãos.

http://bloguedofirehead.blogspot.com/2011/08/jesus-nasceu-mesmo-no-natal.html

Quanto à Saturnália pagã, consta que essa festividade nem sequer era no dia 25 de Dezembro - e até mesmo o solstício de Inverno não é no dia 25 de Dezembro -, logo qualquer colagem que se faça do Natal ao paganismo é falaciosa.

http://bloguedofirehead.blogspot.com/2013/12/o-natal-e-mesmo-pagao.html

Quanto à cremação, houve de facto um tempo em que a Igreja condenou essa prática, logo após a Revolução Francesa, mas oficialmente ela nunca foi proibida. Basta ler o que escreveu o Papa Paulo VI, em 1963, que publicou a Instrução do Santo Ofício "Piam et constantem".

Por fim, quanto à evolução das espécies de Darwin, é bom termos noção duma coisa: a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, tem muito de simbólico, logo certas coisas não podem ser interpretadas à letra como fazem muitos fundamentalistas que nem os criacionistas. A evolução não invalida em nada a criação. O próprio Papa Bento XVI afirmou que a criação e a evolução não se contradizem. Dizer que se contradizem é mais um de muitos mitos inventados acerca da Igreja, logo a Igreja que conservou muito do conhecimento face aos bárbaros e ainda financiou e possibilitou o desenvolvimento da ciência. Aliás, se assim não fosse, seria difícil a Academia Pontifícia de Ciência ser a mais laureada de todo o mundo, nem seria possível ter sido a Igreja a criar todo o sistema de ensino e ter fundado a Universidade. Além disso, muitos dos grandes vultos da ciência eram/são membros da Igreja, como por exemplo o próprio Galileu, o tal do mito de que foi condenado pela sua teoria heliocêntrica...

http://bloguedofirehead.blogspot.com/2015/03/o-cristianismo-causou-mesmo-idade-das.html

Sr. Hamsun disse...

Essas questões do paganismo têm piada. Ouvindo e lendo a maioria dos pagãos fica-se com a ideia de que o cristianismo copiou tudo e mais alguma coisa. Não se percebe, então, por que razão os pagãos trocaram o original por uma cópia.

FireHead disse...

Sr. Hamsun,

Ninguém duvida que os pagãos "registaram a patente" de muitas coisas, mas isso foi porque eles surgiram primeiro e fizeram também coisas boas. Mas chegar ao ponto de dizer que TUDO foi copiado pelos cristãos é pura desonestidade e sacanice. Os cristãos não copiaram os sacrifícios - eliminaram-nos. Os cristãos não continuaram com o aborto - eliminaram-no. Os cristãos não acham piada à paneleirice - consideraram-na imoral. De facto os pagãos tinham e ainda têm muitas outras práticas imorais e amorais - foi o Cristianismo que, ao criar a superior civilização ocidental - pôs uma ordem nas coisas.

Outra coisa que os pagãos não compreendem: o Cristianismo substituiu muita coisa que era pagã. Ora, substituir não é o mesmo que adoptar, é fazer com que uma coisa (pagã) tenha deixado de existir para passar a existir outra (cristã). Muito do pensamento pagão clássico foi incorporado na Igreja. Como? Cristianizando-o, ou seja, eliminando a banda podre do paganismo e aproveitando o que deu para ser aproveitado. Foi assim que Santo Agostinho cristianizou Platão e São Tomás de Aquino incorporou o pensamento aristotélico na Igreja.

Sr. Hamsun disse...

Exacto. E tinham plena consciência disso. O que mostra que não estavam a plagiar, se o estivessem a fazer iriam ocultar as origens. Veja-se o caso dos primeiros apologetas que se referiam a Platão como sendo um "Moisés da Ática", assim mostrando o respeito pelo filósofo e a percepção do que lhe deviam em termos de pensamento.

FireHead disse...

Os pagãos, como os da praça que bem conhecemos, arranjam sempre maneiras de tentar inventar origens pagãs do Cristianismo, seja Nossa Senhora de Fátima, seja o Natal ou o diabo a quatro, mas depois descartam-se por exemplo dos maus tratos aos animais - como por exemplo o excelente exemplo das touradas - que são paganices. E depois nem mesmo entre eles há entendimento, uns defendem que o paganismo é nacionalmente identitário (apesar das origens ancestrais indo-arianas e não sei quê - mas ei, o Cristianismo é que é semita, é judiaria, blá blá blá) e outros, sobretudo os WICCANOs e os novaerenses (já agora também os maçons), são os arautos por excelência do multiculturalismo, da diversidade, da harmonização, etc. etc.

Até agora ainda estou positivamente à espera que algum pagão dito nacionalista me explique, com pontos nos is, como é que o Ocidente está a ficar decadente precisamente agora que assistimos a uma perda da influência cristã e o regresso do paganismo. Não é suposto acontecer precisamente o contrário? E porque é que a católica Polónia é nacionalista e personalidades como o Viktor Orbán ou o Robert Fico terem falado da defesa da Europa em nome dos valores cristãos??

http://bloguedofirehead.blogspot.com/2016/03/se-perda-de-influencia-crista-e-uma.html