sábado, 14 de maio de 2016

O mais grave retrocesso do socialismo na China

Revolução cultural começou há 50 anos


A Revolução Cultural chinesa começou há 50 anos, com a Circular de 16 de Maio do Partido Comunista Chinês "contra as ideias e os representantes da burguesia infiltrados no partido, governo, exército e em todas as áreas da cultura"

Lançada pelo fundador da República Popular da China, Mao Tsé-tung, a radical campanha política e social de massas teve como pretexto o "aprofundamento da luta de classes sob a ditadura proletária" e acabou a ser considerada "o maior erro e o mais grave retrocesso da história do socialismo na China". Durante uma década inteira, até praticamente à morte de Mao em Setembro de 1976, dezenas de milhões de pessoas foram perseguidas, presas e torturadas sob a acusação de serem "revisionistas", "reaccionárias" ou "inimigos de classe". Só no interior da China, estima-se que a violência tenha deixado 750 mil mortos. No desencadear da Revolução Cultural, formalmente designada A Grande Revolução Cultural Proletária, esteve uma luta política e ideológica travada na direcção do Partido Comunista Chinês (CPP) e no movimento comunista internacional, em torno do "revisionismo" soviético.
A ascensão de políticos moderados e adeptos de "práticas capitalistas" motivou Mao Tsé-tung a atacar os "Kruschev (o líder soviético que denunciou os crimes de José Estaline) do nosso lado”, visando recuperar o poder político absoluto.
A mobilização da juventude chinesa, com a criação dos Guardas Vermelhos, contra a autoridade e os "quatro velhos" (pensamento, cultura, costumes e hábitos) foi recebida como um gesto libertador por jovens activistas e intelectuais em todo o mundo.
Das matas africanas às universidades europeias, da Birmânia ao Brasil, o maoísmo inspirou movimentos e partidos políticos como a receita certa para a "verdadeira revolução socialista".
Mas um mês após a morte de Mao, em Setembro de 1976, alguns dos seus mais fiéis seguidores, incluindo a mulher, Jiang Qing, foram parar à prisão.
O sucessor designado do líder chinês, Hua Guofeng, também não conseguiu manter-se no poder, cabendo a Deng Xiaoping - o antigo "seguidor do capitalismo", afastado duas vezes por Mao - dirigir o país.
O PCC adoptou uma nova política, denominada "Reforma Económica e Abertura ao Exterior" e rompeu com a antiga ortodoxia marxista-leninista, consagrando na sua constituição o direito à propriedade privada e o princípio do primado da lei.
Em 1982, a Revolução Cultural seria oficialmente considerada "o maior erro e o mais grave retrocesso da história do socialismo na China".
O contributo de Mao Tsé-tung foi também revisto, e o PCC concluiu que o antigo presidente esteve "70% certo e 30% errado".
A China, entretanto, tornou-se na maior potência comercial do planeta e a segunda maior economia do mundo, investindo milhares de milhões de dólares nos "países capitalistas".
Sinal dos tempos, desde há dois anos, o 1.º de Maio, Dia do Trabalhador, que era até então celebrado com uma semana de férias, passou a ser apenas mais um feriado, aproveitado por milhões de chineses para ir às compras ou passear.


Quandos os Guardas Vermelhos desfilaram em Macau

Há ainda hoje várias visões do 12,3 (3 de Dezembro de 1966, na versão inglesa) que os portugueses adaptaram para 1,2,3. Cada um dos participantes conta a história do que viu. Os historiadores não têm dúvidas que se tratou da extensão a Macau da Revolução Cultural

Não há dúvidas quanto aos antecedentes e sequência dos acontecimentos do motim. Os jornalistas João Botas no seu blogue Macau Antigo e José Pedro Castanheira em "os 58 dias que abalaram Macau" dão amplo (ainda que nunca total) dos incidentes. Um documentário da TDM, que é possível ver traduzido em chinês em https://www.youtube.com/watch?v=IlMJz5TdSfs acrescenta interpretações quer de elementos portugueses, quer de chineses que viveram os acontecimentos. 
Como causa maior, é referido que, como conta João Botas "os residentes chineses da ilha de Taipa esforçaram-se para obter uma licença do governo português para a construção de uma escola privada. Como não obtiveram resposta, iniciaram por conta própria a construção". A Polícia interveio, houve os primeiros encontros que depois se foram estendendo à península. 
Em Novembro já "o caldo estava entornado", até porque a Polícia, comandada pelo coronel Mota Cerveira, não estava preparada para conter movimentos de massas como o que aconteceu a 3 de Dezembro quando a multidão começa por invadir o gabinete do governador, seguindo-se a vandalização de repartições públicas, cujos arquivos foram atirados pelas janelas. Foi declarada lei marcial pelo governo colonial e as tropas entraram em cena e algum deu uns tiros que mais complicou a situação: no balanço final registaram-se 11 mortos e cerca de 200 feridos.
A situação foi-se agravando, Salazar mandou resistir e o recém-chegado governador Nobre de Carvalho com o apoio de algumas influentes figuras da então Câmara do Comércio Comercial foi tentando "mediar" o confito, enquanto "as massas" faziam desfiles quase diários.
Finalmente o governador Nobre de Carvalho assinou um pedido formal de desculpas das autoridades portuguesas, o pagamento de indemnizações às vítimas e o encerramento de todas as instituições activas em Macau ligadas aos nacionalistas do Kuomintang, o que revela bem que havia razões mais fortes para a contestação do que a construção da escola na Taipa.

Outras causas

Os que têm uma visão mais alargada dos acontecimentos, não podem deixar de interpretá-los à luz dos acontecimentos internos na China, a dificuldade em aceitar o facto de que Macau era "uma base" para os nacionalistas de Chiang Kai-shek e mesmo as relações do regime de Mao Tsé-tung com a URSS.
João Guedes, o mais profundo investigador da história contemporânea de Macau, recorda em livro ainda por publicar, mas a que o jornal Tribuna de Macau teve acesso que o general Lajes Ribeiro que ocupava as funções de chefe de gabinete do governador Nobre de Carvalho não teve quaisquer dúvidas que "as manifestações foram claramente planeadas. Os manifestantes eram na sua maioria Guardas Vermelhos oriundos das escolas chinesas, com destaque para a 'Escola Hou Kong' e a sua direcção estava a cargo da dirigente da Associação de Educação Chinesa".
Tal como aconteceu, mais de duas décadas depois, sobre Tiananmen, os elementos locais seguiram "os ventos que sopravam de Pequim", e neste caso a revolução cultural era dominante.
Nesta primeira fase, a "Revolução Cultural" estava no auge, com Mao a usar os Guardas Vermelhos para consolidar o seu poder em relação aos dirigentes mais moderados, liderados pelo presidente Liu Shao-chi. Milhões de jovens oriundos de todo o país foram manifestar o seu apoio a Mao na Praça de Tiananmen, e por oito vezes desfilaram de livro vermelho na mão, perante Mao Tsé-tung.
Mas as coisas foram evoluindo rapidamente. Os Guarda Vermelhos foram-se dividindo em grupos cada um mais radical, e meses depois o exército "revolta-se" em Wuhan apoiando os moderados contra os operários feitos Guardas Vermelhos.
Mao Tsé-tung, já livre dos que considerava seus "adversários políticos" apoia o exército como pilar do Estado e do Partido Comunista e a sua preocupação passa a ser a estabilidade. A nova fase da Revolução Cultural foi enviar Guardas Vermelhos – estudantes ou operários radicais – para trabalharem nos campos e aprenderem com os camponeses.
Com a "Revolução Cultural" a dar os seus últimos passos, os activistas de Macau também perderam "gás" e o acordo com as autoridades portuguesas passou a ser uma questão de tempo.
Já nos anos 50, no auge da luta "o meu comunismo é melhor que o teu", em resposta a Estaline que o criticara por existir a colónia de Hong Kong e "até um pequeno país como Portugal" manter a colónia de Macau, Mao Tsé-tung declarara que "convém-nos ter estas portas abertas ao mundo, e faremos regressá-las à metrópole, antes do fim do século". Hong Kong reverteu em 1 de Julho 1997 e Macau em 20 de Dezembro de 1999.
O 12,3 de Dezembro de 1966 foi apenas um dos episódios da Revolução Cultural, e embora tenha afectado muito a comunidade portuguesa e alguma chinesa que resolveram emigrar, foi dos menos sangrentos deste período negro do história recente da China.


Gary Ngai: De tradutor de Mao a "espião imperialista"

Quando deixou a Indonésia rumo à China, Gary Ngai Mei Cheong mudou para sempre a sua vida. O cargo de tradutor de Mao Tsé-tung não o protegeu da Revolução Cultural e acabou enviado para o campo, acusado de ser "espião imperialista"

Nascido na Indonésia em 1932, Gary Ngai tornou-se no primeiro membro da sua família de seis gerações de chineses ultramarinos a partir para a China, onde nunca havia estado.
Foi inserido num grupo de 80 alunos de escolas chinesas da Indonésia "escolhidos" para prosseguir estudos na China, o primeiro grupo de estudantes estrangeiros a chegar à nova China comunista.
"Estávamos em Agosto de 1950, em pleno início da República Popular da China quando cheguei a Pequim". O sentimento era o de que se vivia "uma época dourada" e que os líderes eram como Edgar Snow os descrevera na obra "Estrela Vermelha sobre a China".
Após um período de "doutrinação", foi seleccionado para participar no programa da Reforma Agrária em curso, indo inicialmente para Cantão. "Fiquei surpreendido com a China que encontrei. Éramos apenas jovens estudantes e não sabíamos muito bem o que estava realmente a acontecer, mas havia um extremismo que ia contra a política de que Mao falava", relata Gary Ngai, 83 anos, à Lusa.
Depois de se graduar, em 1956, iniciou a carreira profissional no Departamento de Relações Internacionais do Partido Comunista da China (PCC).
Inicialmente afecto à secção do sudeste asiático, foi depois transferido para a da Europa Ocidental, em que uma das rotinas passava por traduzir jornais estrangeiros, do holandês, sueco, inglês, alemão e italiano para dirigentes do partido.
Esteve com Mao Tsé-tung "poucas vezes, sobretudo quando líderes comunistas da Europa visitavam Pequim", mas ficava "nervoso por estar muito perto", porque "ele era, afinal, um líder".
Com Deng Xiaoping a relação foi diferente. "Traduzia para ele e para os filhos os filmes de 'cowboys' a preto e branco que adoravam. A relação era boa e a amizade continuou mesmo depois de Mao ter posto Deng de parte.
Gary Ngai começou a perceber que "algo estava a ficar errado", no início de 1959, quando lhe foi negada autorização para se juntar a uma delegação que iria partir para Suíça.
"Soube mais tarde que fui discriminado por ser um chinês ultramarino. Foi um amigo meu que trabalhava no gabinete que fazia a selecção que me disse que só foram escolhidos os que não tinham qualquer tipo de relação com o estrangeiro", recorda.
Seguiu-se uma perseguição no trabalho, buscas em casa, interrogatórios durante dias a fio pela suspeita de "conluio com estrangeiros contra a China", e violência física e psicológica por parte dos próprios colegas de trabalho que estavam do lado político oposto.
Com a Revolução Cultural (1966-76) em marcha, Gary Ngai foi enviado para a província de Heilongjiang, perto da fronteira com a Rússia, notória pelos Invernos rigorosos, com temperaturas que atingiam os 36 graus negativos, sendo transferido depois para Henan. No total foram aproximadamente quatro anos.
"Erámos vistos como pessoas que deixaram de ser de confiança. Os chineses ultramarinos tinham conexões com o exterior e, por isso, consideravam-nos 'espiões imperialistas'", diz hoje Gary Ngai entre risos, à distância de 50 anos.
Em 1972, com a histórica visita do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon à China, foi "chamado" a Pequim, voltando antes do que seria suposto, por causa da falta de especialistas em línguas estrangeiras.
Em 1979, mudou-se para Macau, onde continua radicado até hoje.

Li Changsen: Como estudar português em tempos de grande caos

Em 1965, poder entrar na licenciatura de português de uma universidade chinesa foi "uma rara oportunidade" para Li Changsen, que, ao contrário de muitos, nunca abandonou os estudos, mesmo quando um ano depois irrompeu o caos da Revolução Cultural


Li Changsen entrou no Instituto da Radiodifusão de Pequim (actual Universidade de Comunicação da China) num ano em que abriram duas turmas, cada uma com 20 alunos, uma dedicada ao português de Portugal e outra ao português do Brasil. Li frequentou a segunda.
Com a chegada da Grande Revolução Cultural Proletária em 1966 "toda a ordem pedagógica deixou de existir. Tudo dependia, de facto, de cada turma, da vontade dos alunos. Era a anarquia", disse Li Changsen à agência Lusa, a propósito da passagem dos 50 anos do início do movimento político e social desencadeado por Mao Tsé-tung para consolidar o seu poder. 
Metade dos 40 alunos das turmas de português desistiu dos estudos para se dedicar ao movimento revolucionário, mas os outros decidiram não desperdiçar a oportunidade de terem conseguido entrar na universidade. "Por isso, apesar do caos em todo o país e também dentro do instituto, eu e outros continuámos", conta Li, recordando as vezes que foi ao hotel da professora Rosália "só para aprender mais umas palavras, conversar, praticar a língua", em conturbados tempos em que os materiais didácticos não passavam de uma miragem. 
O Instituto da Radiodifusão de Pequim – o primeiro estabelecimento de ensino superior da China a abrir, em 1960, um curso curricular de língua portuguesa – ministrava 23 línguas, sobretudo as do chamado 'terceiro mundo', incluindo a portuguesa e as faladas em territórios africanos, em linha com a teoria de Mao Tsé-tung de apoiar países e povos que combatiam o imperialismo e o colonialismo e lutavam pela independência. 
A Revolução Cultural paralisou todo o ensino na China. No caso dos cursos de português, as novas admissões foram suspensas durante sete anos, até ser colocada em marcha uma nova política que veio facilitar a entrada de camponeses, operários e soldados e resgatou os "bem-comportados" que haviam sido enviados para o campo, independentemente do diploma do ensino secundário. 
Em 1969, "apesar de toda a turma ter sido transferida da cidade para o campo", Li continuava a estudar, mas apenas de manhã, "porque à tarde ia para a lavoura". Foram oito meses a aprender o "espírito revolucionário dos camponeses", num templo antigo e abandonado transformado em sala de aula. 
No ano seguinte, foi "felizmente" escolhido para trabalhar na Rádio Pequim – hoje Rádio Internacional da China –, na secção de língua portuguesa, onde fez carreira durante mais de duas décadas, como intérprete/tradutor e jornalista. Outros continuaram a receber "reeducação ideológica". 
Em 1973, ainda corria a Revolução Cultural, Li partiu para África, onde teve o primeiro contacto real com falantes de português. Foi designado pelo governo chinês para trabalhar em dois centros de treino militar, no sul da Tanzânia, para onde eram enviados guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), trabalhando como intérprete durante quase dois anos. 
O primeiro país lusófono que pisou foi a Guiné-Bissau, em 1983, novamente requisitado pelo governo chinês, no quadro de um acordo de cooperação económica em que a China se comprometeu a desenvolver projectos para apoiar o país. Ficou pouco mais de um ano. 
Já como jornalista teve um dos pontos altos da carreira em 1987, quando testemunhou a assinatura da Declaração Conjunta Sino-Portuguesa. Foi para Macau que foi destacado, de seguida, para colaborar no processo de transição, em particular na tradução jurídica e nunca mais deixou o território.



Yao Jingming: Um "pequeno guarda vermelho" num "desastre que não poupou ninguém"

Quando a Revolução Cultural começou, Yao Jingming tinha oito anos e como milhares de crianças chinesas foi um "pequeno guarda vermelho", depois enviado para o campo para aprender grandes lições de vida, porque "o desastre não poupou ninguém"

"Havia dois grupos de Guardas Vermelhos: o das escolas secundárias e universidades e o das crianças da primária. Ainda me lembro de quando era um 'pequeno guarda vermelho', das escolas paralisadas, de professores 'derrubados', humilhados com uma placa ao pescoço com o nome riscado e o crime cometido, como serem espiões e coisas do género", contou Yao Jingming à agência Lusa a propósito dos 50 anos do início da Grande Revolução Cultural Proletária.
"Passaram-se coisas horríveis... Eu assistia com um olhar curioso e, como era pequenino, até achava interessante. Na minha mentalidade, (o fundador da República Popular da China) Mao Tsé-tung tinha sempre razão. Eu ainda não sabia distinguir o bem do mal", relatou.
Yao Jingming nasceu em 1958 em Pequim. Após terminar a escola primária, foi "seleccionado" – eufemismo para obrigado – para estudar espanhol numa escola ligada ao Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim, onde teve "aulas de cor vermelha". A primeira expressão que aprendeu na língua de Cervantes foi: "Viva el presidente Mao!".
O espanhol acabaria por ficar na gaveta e no final do ensino secundário, em plena adolescência, foi enviado com os colegas de turma para o campo, onde esteve cerca de um ano e meio para ser "reeducado" pelos "mestres".
Seguindo directivas decretadas por Mao, "quase todos os estudantes da escola secundária iam para o campo ou para as fábricas".
"Aprendemos coisas boas, mas também outras muito negativas. Permitiu, primeiro, conhecer a realidade do mundo rural e, depois, conhecer a humanidade dos camponeses", conta Yao, considerando que até teve "sorte" porque foi mandado para uma comuna popular nos subúrbios de Pequim.
"Havia duas camponesas experientes para nos guiar. Todos os dias levavam-nos para o campo para trabalhar no arrozal. Sei tudo sobre como cultivar! Mas foi muito duro", lembra, descrevendo dias que começavam às cinco da manhã e a "enorme fome" no final da jornada: "Comíamos muito, sempre cereais, não havia muita carne".
"Tenho ainda uma impressão muito clara daquela experiência. Para mim foi positiva porque aprendi muita coisa que não se podia aprender na escola", sublinha Yao, ainda com as mensagens, músicas e instruções da propaganda transmitidas pelos altifalantes da aldeia presentes na memória.
Com o final da Revolução Cultural em 1976 e a restauração do sistema de exames nacionais para o acesso ao ensino superior, Yao Jingming ingressou no então Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim, onde se licenciou em língua portuguesa e iniciou a sua vida profissional como tradutor.
No final da década de 1980 partiu para Portugal para trabalhar na embaixada da China. O impacto foi "grande" para quem pouco sabia do mundo.
Conheceu Eugénio de Andrade, o primeiro poeta que viria a traduzir para chinês. Seguir-se-iam Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Miguel Torga ou Sophia de Mello Breyner.
Depois de Lisboa, ainda regressou a Pequim mas por um curto período de tempo e no início dos anos 1990 mudou-se para Macau, onde ainda vive.
Hoje, à distância de 50 anos, Yao não tem dúvidas de que as repercussões negativas da Revolução Cultural perduram.
Foi um movimento que, "de certo modo, explorou ao máximo o mal da humanidade: pais que denunciavam filhos, homens que denunciavam as mulheres, tudo para se salvarem a si próprios de consequências muito graves, que podiam ser até a morte. A confiança acabou".
Yao Jingming ainda reflecte sobre momentos que viveu durante aquele tempo, a partir dos quais constrói poemas.
"Tenho um em que imagino se haverá um país ou um reino com palmas e com dedos do mesmo tamanho", numa mensagem "irónica", porque "há sempre uma força, uma tendência muito forte para uniformizar – é horrível".
"Acho que só percebi realmente as consequências negativas da Revolução Cultural, que foi um desastre, na universidade, com a leitura de escritores, também porque tinha o pensamento mais maduro e capacidade para distinguir as coisas", afirma Yao, confessando não gostar de falar sobre o tema, embora lhe seja "tão familiar".
Hoje, Yao Jingming não tem dúvidas em afirmar que "foi pior do que qualquer desastre natural, porque destruiu muitas coisas boas da tradição chinesa. Não só a nível material, mas também espiritual".
"A nossa moral, o nosso espírito de nação foram fortemente arruinados. Fez-se em nome da cultura, mas foi um movimento puramente político, com o objectivo de arruiná-la", afirma.
E a lição que fica é simples, é a de que "uma vez já chega. Não pode voltar a acontecer".


A cruzada de Mao Tsé-tung contra uma civilização de "pragmáticos"

A Grande Revolução Cultural Proletária, lançada há 50 anos pelo antigo presidente chinês Mao Tsé-tung, ambicionou transformar a fisionomia moral da sociedade chinesa, num violento processo considerado então vital para o triunfo do socialismo

Mao almejava "construir todo um novo código de valores e uma nova narrativa sobre a China e a sua cultura tradicional", disse à agência Lusa em Pequim Ma Yong, investigador da Academia Chinesa de Ciências Sociais. 
Para o historiador, de 66 anos, a Revolução Cultural foi um "ensaio sem precedentes", que "despedaçou a sociedade" e conseguiu, "efectivamente, alterar várias noções dos chineses". "Mao fez uma leitura inédita da civilização chinesa e da História da China", sublinhou. 
Confúcio, um dos maiores sábios da China Antiga, por exemplo, passou a ser "repudiado" como "defensor de uma sociedade esclavagista", enquanto vários "maus da fita" da História chinesa foram "promovidos a heróis". 
Após a fundação da República Popular da China em 1949, Mao Tsé-tung colectivizou a agricultura e adoptou uma economia planificada, mas considerava que "o retrocesso para uma sociedade capitalista só poderia ser evitado com a construção de uma cultura puramente socialista", recorda Ma Yong. 
O resultado foi que durante uma década inteira, dezenas de milhões de pessoas foram perseguidas, presas e torturadas sob a acusação de serem "revisionistas", "reaccionárias" ou "inimigos de classe". 
"Muitos dos intelectuais que não se enquadravam numa cultura puramente socialista suicidaram-se", enquanto "património e relíquias culturais em todo o país foram arrasados", descreveu. 
No plano internacional, o movimento comunista estava dividido, após o líder soviético Nikita Kruschev denunciar a "brutalidade e abuso de poder" de José Estaline. 
Na China, devido aos desastres provocados pelas suas políticas económicas, Mao enfrentava também críticas internas no Partido Comunista Chinês (PCC). 
A ascensão de políticos mais moderados e adeptos de "práticas capitalistas", como o presidente Liu Shaoqi e o secretário-geral do PCC Deng Xiaoping, levaram-no a atacar os "Kruschev do nosso lado", visando recuperar o poder político. 
Sob o pretexto de que a "linha revisionista" tomara conta do PCC, Mao exigiu a expulsão imediata dos políticos mais moderados. 
Perseguido e purgado, Liu Shaoqi viria a morrer em 1969, em Kaifeng, na província de Henan, centro leste da China. 
Deng Xiaoping, que caiu em desgraça por duas vezes, assumiu o poder poucos anos após a morte de Mao, para se tornar o "arquitecto-chefe das reformas económicas" que abriram o país à economia de mercado. 
A Revolução Cultural foi, entretanto, condenada pelo PCC como "o maior erro e o mais grave retrocesso da história do socialismo na China". 
Rompendo com a antiga ortodoxia marxista-leninista, a China consagrou na sua constituição o direito à propriedade privada e o princípio do primado da lei, mas o "papel dirigente" do Partido Comunista continua a ser um "princípio cardeal". 
"Os conceitos marxistas foram abandonados e, hoje, a China não é nem de direita, nem de esquerda", realça Ma Yong, que não hesita em classificar a governação do país como sendo, sobretudo, "pragmática". "Historicamente, a civilização e as lideranças chinesas nunca adoptaram uma ideologia rígida. A China adere a conceitos, desde que lhe sejam úteis", conclui.


Tribuna de Macau/Lusa
13 de Maio de 2016

2 comentários:

Anónimo disse...

Às vezes penso que o poder do PCC só acabará no fim dos tempos mesmo.

FireHead disse...

O Chiang Kai-shek acreditava que o comunismo ia acabar em breve na China, tanto assim é que a crença ainda é hoje em dia partilhada pelo Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang) que está em Taiwan. Ainda hoje o Kuomintang acredita que um dia regressará à China continental para mandar e transformar o país numa verdadeira potência, tal como conseguiu fazer com um território muito mais pequeno como é Taiwan.