terça-feira, 31 de maio de 2016

China: milhões de crianças rurais crescem longe dos pais

A mega-rápida urbanização em curso, como nunca antes visto na história do mundo, está a separar milhões de famílias. As difíceis condições no campo obrigam as pessoas a irem para a cidade. Para trás ficam os filhos. Muitos não aguentam a pressão e suicidam-se. Os casos são mais frequentes do que se pensa.


Yang Jie, trabalhadora migrada em Pequim, admite sentir “muitas saudades dos filhos”, que vivem com os avós numa aldeia da província de Henan, mas sabe que a vida na China é feita de escolhas difíceis. 
“Claro que tenho saudades, mas tem que ser assim. Na aldeia, não há como ganhar dinheiro”, diz à agência Lusa Yang, em tom de palavra de ordem. 
Mãe de três filhos, esta chinesa de 40 anos ganha a vida a fazer ‘Jianbing’, um tradicional crepe chinês preparado em pequenas bancas, normalmente montadas junto às estações do metropolitano de Pequim. 
O seu caso personifica um fenómeno de consequências sociais imprevisíveis e que “coloca grandes desafios à gestão social” do país mais populoso do mundo. 
Segundo dados recentes citados pela imprensa estatal, a China tem quase 100 milhões de “crianças deixadas para trás”, filhos do vasto exército de trabalhadores migrados nas cidades. 
As últimas décadas foram de transição de uma sociedade maioritariamente agrária para uma urbano-industrial a um ritmo ímpar na história da humanidade. 

Milhões de separações

A referida estimativa, feita por Song Yinghui, professor da Beijing Normal University, aponta para um terço do total da população chinesa menor de idade que cresce sem acompanhamento dos pais. 
O académico detalha que 60 milhões permanecem nas suas casas, normalmente no campo, devido ao alto custo de vida nos centros urbanos ou a restrições na autorização de residência, que limita o acesso a vários serviços básicos, como a educação e saúde pública. 
Já 36 milhões, apesar de terem partido com os pais para as cidades, vivem separados destes, segundo Song. 
No caso de Yang Jie, apenas o filho mais velho, de 16 anos, foi com ela e o marido para Pequim, “onde frequenta um curso profissional e em breve começará a trabalhar”. 
Os outros dois, um menino e uma menina, de 13 e cinco anos, ficaram em Henan, a cerca de 700 quilómetros da capital. 
Quando o casal reencontra os filhos - apenas uma vez por ano, “durante as férias de Verão” - os miúdos estranham, mas “apenas por pouco tempo”, antes dos afectos virem ao de cima. 
“O elo entre pais e filhos é resistente”, diz Yang.

Pequim estuda

Ainda assim, as autoridades chinesas têm dado crescente atenção a este grupo de crianças, que dizem apresentar riscos mais elevados de serem vítimas de abusos físicos ou sexuais e maior incidência de delinquência juvenil e desempenho escolar inferior. 
Em Março passado, Pequim anunciou que vai fazer um levantamento para saber o número exacto de “crianças deixadas para trás”. 
O Conselho de Estado chinês ordenou ainda os governos locais a construir um banco de dados com um ficheiro por cada menor de idade nesta categoria, que deve ser regularmente actualizado. 

Tragédias frequentes

A ocorrência de tragédias envolvendo estas crianças é frequentemente notícia na imprensa chinesa. 
Em Janeiro de 2014, um menino de nove anos, natural de Anhui, província do sudeste da China, enforcou-se quando soube que a mãe não voltaria a casa durante a passagem do Ano Novo Chinês. 
No ano passado, quatro irmãos chineses, com idades entre os cinco e os 14 anos, abandonados pelos pais durante meses, morreram depois de terem ingerido pesticida em Bijie, na remota província de Guizhou. 
O incidente levou o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, a pedir “o fim destas tragédias” e a prometer castigar responsáveis incapazes de ajudar famílias com problemas semelhantes. 
Para Li Ying, conhecida activista que fundou uma organização não-governamental destinada a ajudar estas crianças, o apoio do Governo é importante, mas o mais crucial é encorajar os pais a voltar a casa. 
“Depois de muitos anos a prestar apoio, penso mesmo que nada consegue substituir os pais”, afirmou Li ao South China Morning Post. 
“As autoridades deviam focar-se em criar condições para que os pais regressem a casa, gerando postos de trabalho e melhorando o sistema de segurança social”, acrescentou. 
Até lá, qualquer argumento parecerá inválido face ao sentido prático de Yang Jie. 
“Nós somos diferentes de vocês [residentes urbanos]. Vocês vivem bem, mas nós temos de lutar para sobreviver. Onde é que há tempo para pensar no bem-estar psicológico das crianças?”, questiona.


Lusa via Hoje Macau
30 de Maio de 2016

4 comentários:

wind disse...

É a desgraça da China e já dura há muitos anos.

FireHead disse...

Pelo menos os chineses fazem filhos. Os europeus é que já nem por isso, ou cada vez menos.

Lura do Grilo disse...

Muito triste: uma geração que fica incompleta na sua formação.

FireHead disse...

Mas para a China as pessoas são números. Mais ou menos, que diferença faz?