terça-feira, 17 de maio de 2016

Actualidade: o que os outros dizem

Acabou o campeonato e o Benfica foi campeão. Justo? Sem dúvida nenhuma. Quem faz 88 pontos em 34 jogos, quem ganha 29 das 34 jornadas, quem perde pontos contra apenas quatro das 17 equipas que tem como adversárias no campeonato, é um campeão justo em qualquer parte do mundo. E no entanto, do lado do Sporting, o derrotado, mantém-se o discurso: "Não ganhou a melhor equipa", disseram jogadores e treinador. É verdade que, com os seus 86 pontos, com apenas duas derrotas em toda a Liga, com cinco vitórias em seis clássicos, o Sporting também teria sido um campeão justo. Os leões foram a equipa que mostrou o futebol mais bonito, mais enleante, mais colectivamente trabalhado. Mas as hipóteses de sucesso da candidatura sportinguista ao título do ano que vem dependem de os seus responsáveis perceberem porque é que o Benfica foi campeão neste ano. Porque há razões para isso que vão muito para lá da sorte e do azar (António Tadeia, Diário de Notícias).

Que país em ruínas sobrará depois de uma experiência governativa cujo único cimento é a sobrevivência no poder, cujo programa é um regresso ao passado, cujo efeito começa a ser devastador na economia? O governo completou seis meses e os foguetes estalaram como se tivesse concluído uma legislatura. O que se compreende: sem foguetório não é possível iludir o faz-de-conta em que vivemos. Sem foguetório não é possível iludir que estamos hoje pior do que há seis meses. Sem foguetório não é sobretudo possível mascarar que neste processo nos estamos a despedir do que foi em tempos um partido moderado e reformista, o Partido Socialista (José Manuel Fernandes, Observador).

Temos um governo que considera que tudo na vida em sociedade tem de passar pelo Estado – mas isso não espanta, afinal são socialistas. Eu tenho opinião contrária e digo que o Estado só deve estar onde os privados não conseguem chegar – afinal sou da inexistente direita liberal. E temos ainda um governo que tem o prazer acrescido de dar uma cacetada na Igreja encerrando-lhes colégios que prestavam bons serviços aos alunos que ensinavam, que passarão a desfrutar as greves da Fenprof em dias de exames. Pode ser que da próxima vez a Igreja saiba escolher as companhias (Maria João Marques, Observador).

O drama. O horror. A tragédia. O fim dos tempos, até. É mais ou menos isso que, para sermos politicamente correctos e parecermos inteligentes, devemos pensar de uma possível vitória de Donald Trump na corrida à Casa Branca. Não é que goste particularmente da criatura, mas começo a preferi-lo à Clinton. Ao que consta, a senhora – talvez na ânsia de ganhar votos entre a comunidade muçulmana – estará a equacionar a hipótese de, caso ganhe, impor nos States a chamada lei da blasfémia. O que, a verificar-se, será qualquer coisa de parecido com o retorno à idade das trevas. Algo, convenhamos, muitíssimo mais dramático, horroroso e trágico do que as parvoíces do “Trampas”. Embora muito mais do agrado das esquerdas e dos parolos do politicamento correcto (Kruzes Kanhoto, Kruzes Kanhoto).

O relativismo é o principal elemento destruidor da cultura ocidental. Quando perguntamos como é que chegámos aqui, encontramos resposta naquele. Mais difícil é perceber como é que uma ideia que se auto-anula conseguiu prevalecer durante milénios. Protágoras de Abdera é, provavelmente, o primeiro dos relativistas. Na sua famosa expressão o homem é a medida de todas as coisas, inaugura a genealogia do mal. Mas também Xenófanes de Colófon, ao relativizar a percepção da crença religiosa, contribuiu para a derrocada. Naturalmente, os romanos continuaram os desmandos. A sua tolerância religiosa caminha a par do avanço relativista. Como facilmente percebeu Chesterton, quem tudo tolera fracas convicções possui. E em mentes demasiado abertas todo o lixo pode entrar. (...) Naturalmente, ao colocarem em causa os grandes valores, desvalorizando-os, abriram caminho à proliferação de pseudo-valores e contravalores. Destruindo as bases da sociedade, os laços comunitários, abriram caminho a aparências: o culto do corpo, dos animais, do materialismo, da falsa liberdade. Ao desvalorizarem a vida, abriram portas à morte (no aborto, eutanásia, etc). Ao minarem os direitos naturais produziram falsos direitos (a tudo o que se possa imaginar). Ao retirarem Deus do mapa, abriram caminho a novos deuses (direitos humanos, etc). Ao eliminarem a realidade abriram caminho à utopia, nova ou velha, com as consequências que sempre acompanharam a emergência e instauração das mesmas. Conseguiram algo de extraordinário: fazer de uma mentira uma verdade, uma certeza. Por isso, a luta pela Civilização passa, essencialmente por aqui. O combate ao relativismo é central. Perdido este, tudo se encontra perdido. Sim, nunca vivemos tão bem do ponto de vista material, mas nem só de pão vive o homem. E, sob esse aspecto, a decadência moral tem sido inegável. Como foi possível? (Sr. Hamsun, O Século das Nuvens)

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