sexta-feira, 13 de maio de 2016

A direitinha tem um problema com o dr. Salazar

Há um problema sério da direitinha nacional em relação ao dr. Salazar e à sua herança. Nas comemorações da abrilada tivemos a sra. deputada do PSD a falar, a propósito já não sei de quê, no mais "bafiento salazarismo". No último sábado, a sra. ex-ministra das finanças era citada a propósito de uma sua afirmação na qual referia não gostar de citações de Salazar. Hoje, no blogue Insurgente, Rodrigo Adão da Fonseca refere-se a um texto que, segundo ele, mais parece um panfleto salazarista. E no Blasfémias Gabriel Silva fala em "resquícios da herança salazarista". 
Tal obsessão seria risível se não demonstrasse o complexo da direitinha portuguesa face ao dr. Salazar. Esta necessidade de distanciamento explica-se, em parte, pelas afinidades da direitinha com o esquerdalho e a sua dependência em relação a este em termos de assentimento. A direitinha lusita vive ainda na necessidade permanente de não ser hostilizada pelo esquerdalho com o suprassumo dos insultos, o nefando "salazarista/fascista" que deixa qualquer um estarrecido e moralmente devastado. Neste ponto, a direitinha lusita faz lembrar certos adolescentes que necessitam da aprovação dos pares mais velhos e experientes, ao mesmo tempo que tentam escapar à sombra do pai. Freud, tão cosmopolita como a nossa direitinha, explicaria isso. 
De maneira que, quarenta e dois anos após a abrilada, é isto que continuamos a ter. Uma direitinha vergonhosa, sempre na dependência do beneplácito do esquerdalho para a presença no espaço público. Numa cumplicidade de interesses em relação a questões éticas e civilizacionais e que só discorda daquelas em questões pontuais, qual arrufozinho de namorados. 
Esta cegada acerca da escola pública VS dita privada ilustra bem a ideia. Nos últimos dias a direitinha tem dispendido uma energia tal que não lhe vai sobrar mais nenhuma quando o esquerdalho voltar a atacar com as questões fracturantes. De resto, tem sido assim. Onde estavam tantas assinaturas, cartas, textos de opinião, aparições televisivas quando se permitiu o aborto subsidiado, os "casamentos" gueizistas, a adopção por pares de invertidos? Onde estava e estará esta energia quando se voltar a falar de eutanásia ou barrigas de aluguer e outras abominações? (falo propositadamente em "abominações" para estabelecer a distinção com a direitinha, que certamente não usará esta palavra, demasiado pré-conciliar. Neste ponto, a direitinha é também muito moderna e arejada, comungando das ideias do Papa Bergoglio, igualmente estimado pelo esquerdalho). 
Todos diferentes, todos iguais, dizia o slogan propagandístico há umas décadas. Exactamente como no nosso mercado ideológico. Direitinha e esquerdalho, todos muito cosmopolitas, universais, viajados, modernos, progressistas, e acima de tudo nunca se confundindo com Salazar.

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