terça-feira, 5 de abril de 2016

Política (d)e verdade


Salazar escolhe a sinceridade como primeiro instrumento da revolução e arma mais segura da sua reforma financeira. Considera que é mais simples colocar todo o país, desde o começo, perante a verdade, por mais desagradável que ela fosse. Continuar com orçamentos disfarçados e com reformas fictícias não é só ineficiente, mas verdadeiramente perigoso. Todos devem compreender que estão à beira do precipício e que só se podem salvar por si próprios. A salvação pode ser obtida com meios simples, os ditos procedimentos clássicos - poupanças, sem dúvida, mas não só poupanças, também uma boa administração dos recursos dentro dos ministérios, a supressão dos créditos não utilizados, o adiamento das obras menos urgentes, o abandono das despesas parasitárias. 
Tudo isso - simplicidade, bom senso, sinceridade, verdade - são os meios revolucionários pelos quais Salazar tenta não apenas salvar as finanças do país, mas, ao mesmo tempo, acordar o povo do sono artificial em que várias gerações de liberalismo o tinham afundado.

Mircea Eliade, Salazar e a Revolução em Portugal, Lisboa, Esfera do Caos, 2011
via O Século das Nuvens

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