quinta-feira, 31 de março de 2016

Simão, o botão "ON" do Benfica


Simão Sabrosa. Dizemos este nome em voz alta e o espírito glorioso voa directamente para o seu pé direito amanteigado, para a sua chuteira feita de queijo da serra. Era um pontapé em colher que arredondava as arestas do jogo. Em remate aveludado, a bola seguia para o golo largando no ar pozinhos de açúcar, deixava nas redes o creme de um pastel de nata a cair lento para o relvado. 

Dizemos o nome Simão Sabrosa, um nome que evoca dentro de nós a ressurreição do Benfica. O homem que, de bola no pé, lá em baixo, no relvado, lentamente nos foi acordando do nosso autismo cheio de tristeza e mágoa. Foi assim: adormecidos desde 95, íamos ver o Benfica porque não podíamos abandonar o Benfica. Seguíamos, zombies, pelas estradas do país; mortos-vivos, bebíamos nas barracas, em frente a fogareiros e repastos; falávamos uns com os outros, fingíamos que ainda era a mesma coisa. Mas não era. Foram anos, demasiados anos, a ver o Benfica definhar. A ser outra coisa. Eram mau jogadores, eram maus treinadores, maus presidentes, mas era mais do que isso: era um Benfica envergonhado de ser Benfica. Um Benfica que se tinha esquecido de ser Benfica. 

Desde 1995, o nosso ritual religioso: íamos ao estádio rezar preces, ter esperanças, cumprir o dever benfiquista. O João Pinto espalhava génio sem piano a acompanhar. O maravilhoso Michel, o irreverente Karel, a doce ternura de uma quase-vitória. Apresentávamo-nos na Catedral, cumpríamos. Tínhamos o amor - temos sempre o amor - mas faltava-nos a loucura de uma paixão feita de aventuras, viagens e sonhos. Não tínhamos sonhos, tudo era assim-assim. Os anos foram passando e nada. Comprávamos A Bola à espera de um milagre. Vieram novos Presidentes, veio o ano 2000, novos treinadores, novas promessas. Mas nada. Continuava tudo assim-assim. Assim sem fim. No relvado, nos tribunais, nas rulotes e nos céus, o Benfica chorava. Nos novos empreiteiros do Benfica, nas obras, nas estruturas, o Benfica chorava. 

Até que alguém no Terceiro Anel acordou o benfiquista do lado: "Olha lá, vê lá se eu estou a delirar. Parece-me que há ali Benfica" 

O Simão corria por uma ala. Fazia um compasso de espera, olhava o adversário, com a parte de fora da chuteira cheia de açúcar metia para dentro. Rematava para um golo que era a alma toda do Benfica. Depois marcou outro igual. Depois, em vez de ir para dentro, foi para fora e cruzou. Depois marcou livres, marcou cantos, cabeceou, rematou de esquerda, fez tabelinhas, abraçou os jogadores, pediu-lhes a glória porque "isto é o Benfica!". 

Quando demos por isso, já o Simão era o motor que fez vibrar 2005. O botão ON de um grito que esperava desde 94 dentro das malhas dos nossos cachecóis, das camisolas dentro de gavetas, das bandeiras que guardamos na bagageira, dos bibelôs, das canecas, das mantas do Benfica que aquecem os Invernos. Simão Sabrosa carregou no interruptor, abriu as águas de uma barragem sem força para aguentar 11 anos de pressão desesperada sobre o betão. O povo benfiquista saiu enlouquecido às ruas. Finalmente, o Benfica espalhava-se pela alegria. 

2005 foi o grito que libertou o Benfica para a sua magia de Benfica e mostrou que um pé cheio de açúcar, em colher, "nesta curva tão terna e lancinante" pode fazer o milagre de ressuscitar um clube. O Simão foi o botão ON da electricidade mística.


Ricardo Silveirinha in Ontem Vi-te no Estádio da Luz

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