quarta-feira, 9 de março de 2016

«A ignorância aproxima-nos da barbárie»


Céptico, mas não necessariamente pessimista, José Pacheco Pereira confessa que o futuro da Europa lhe suscita muitas dúvidas. O antigo vice-presidente do Parlamento Europeu duvida da capacidade de regeneração da União Europeia, mas mais do que a desfragmentação do projecto europeu, o historiador e bibliófilo teme que o debacle das instituições europeias condena a Europa a um novo ciclo de barbárie e violência. Apesar de ter os livros como companhia quotidiana, Pacheco Pereira não está certo de que a erudição possa redimir o Homem, mas está convicto de que a ignorância não favorece nada, nem ninguém. Por entre elogios a Marcelo Rebelo de Sousa e críticas a Pedro Passos Coelho e à forma como foi conduzido o investimento chinês em Portugal, o ex-deputado social-democrata descarta, por agora, o regresso à política activa e diz que se sente bem entre os mais de 200 mil livros e documentos que dão corpo à maior biblioteca privada do país. José Pacheco Pereira em grande entrevista ao PONTO FINAL. 

- Durante a intervenção que teve no âmbito do Festival Rota das Letras dizia a determinada altura, abordando Umberto Eco, que se enquadra mais no grupo dos apocalípticos do que propriamente dos integrados em relação ao que será o futuro da Humanidade e ao papel da cultura no futuro da Humanidade. Há razões para sermos pessimistas? 

José Pacheco Pereira - Há razões para sermos pessimistas. Havia uma antiga maneira de colocar esta questão que era: deve-se ser pessimista na inteligência e optimista na vontade. Uma coisa não impede a outra. Uma atitude que se deve ter em relação a defender os valores da civilização, os valores da democracia, os valores da liberdade é partir do princípio que tudo que de pior pode acontecer, provavelmente acontecerá. É uma espécie de variante da lei de Murphy. Eu sigo um pouco esse processo. Ou seja, prefiro analisar, ver e discutir o que pode correr mal do que necessariamente aquilo que nós pensamos que vai correr bem, até porque a história mostra que em muitos casos a possibilidade de algo correr mal é grande. Isso não me coloca necessariamente do lado dos apocalípticos, mas entre os apocalípticos e os integrados, apesar de tudo, estou mais perto dos apocalípticos. Acho que há mais vantagem em pensar, de facto, essa possibilidade de as coisas descarrilarem. Isso faz-nos ver certos aspectos da evolução tecnológica que muita gente vê com deslumbramento – como se fosse uma espécie de revolução salvífica para o mundo – como aspectos negativos: a perda da privacidade, por exemplo. A possibilidade de haver um maior controlo sobre as pessoas, a possibilidade de haver por parte dos estados uma vigilância praticamente total de todos as comunicações e de tudo aquilo que se faz, na medida em que tudo deixa um rasto electrónico, a possibilidade de nós voltarmos para um mundo... Um sociólogo no século XIX dividiu, no fundo, as sociedade entre sociedades orgânicas e sociedades mecânicas, chamemos-lhes assim. O melhor exemplo de uma sociedade de tipo mecânico é uma aldeia. Numa aldeia toda a gente sabe tudo sobre todos. Ora, há aspectos hoje, na revolução tecnológica em que se considera normal que se saiba tudo sobre todos e isso é, do meu ponto de vista, uma limitação à liberdade. Não é uma atitude definitiva, não é uma espécie de pessimismo global: admito que algumas coisas possam correr bem. Há um potencial libertador nestas tecnologias. Agora, tudo depende da maneira como elas interagem com a sociedade. 

- Há, no entanto, uma pequena nuance. Apesar de haver toda essa vigilância, há também uma aceitação tácita por parte de uma boa fatia da população...

J.P.P. - Eu isso acho mal... 

- Num país como os Estados Unidos, há quem aceite de braços abertos uma maior vigilância, se a contrapartida for uma maior sensação de segurança. Em troca de segurança, as pessoas estão dispostas a abrir mão da privacidade. Esta questão é paradoxal em si mesma? 

J.P.P. - Essa questão é paradoxal. Há muito tempo que há uma frase, uma citação que muitas vezes é referida: quando se aceita limitar a liberdade em nome da segurança, na verdade não é legítimo esperar nem ter liberdade, nem ter segurança. Tem que haver um equilíbrio entre aquilo que são as necessidades de segurança – e uma sociedade sem segurança é uma sociedade menos livre – mas os Estados não devem ter o poder de fazer tudo. Um dos aspectos positivos da construção democrática é a independência do poder judicial. Tem que se encontrar mecanismos judiciais que controlem o Estado. Mesmo nos Estados Unidos, em que há muitas vezes um abuso da hipervigilância, há algumas limitações jurídicas e quem violar a lei está sujeito a ir parar à prisão, mesmo que o faça em nome do interesse nacional. Eu bem sei que não são muito comuns estes casos, mas eles existem. Há aqui um equilíbrio que tem que ser tido: eu não sou contra que se possa descodificar o telefone de alguém que cometeu um acto terrorista, para saber quais as ligações que mantinha, como é que foi feita a preparação, se há cúmplices. Não estou de acordo que se ofereça ao Estado um mecanismo para poder descodificar todos os telefones. Essa é uma diferença fulcral. A “pesca de arrasto” que muitas vezes os Serviços de Informação fazem e os Estados fazem, em que constroem instrumentos, no fundo, para vigiar todas as pessoas, na esperança de que vigiando todos – como de alguma maneira algumas agências, como a NSA, já têm essa capacidade – se possa apanhar na rede algum “peixe podre”, digamos assim, essas possibilidades, do meu ponto de vista, acho que são más para a democracia. O ataque ao terrorismo, mesmo que isso signifique mais meios – mais meios humanos, mais polícias, mais agentes, mais recursos – deve ser sempre controlado judicialmente e deve ser sempre dirigido a alvos que estejam definidos. A “pesca de arrasto” – que aliás também aconteceu mesmo a outro nível em Portugal, no caso de alguns processos judiciais em que se tentou, no fundo, controlar toda a gente para ver se se apanhava alguém – é algo que é, do meu ponto de vista, pouco sadio em democracia. Um cidadão em democracia tem direito a que a sua liberdade, as suas comunicações, não cometendo nenhum crime, não possam ser escutadas, nem tratadas pelo Estado. Por exemplo, nos Estados Unidos – que é um país onde estas contradições são muito fortes – foi importante que uma livraria, quando foi do processo Lewinski, se recusasse a dizer que livros é que Monica Lewinski tinha comprado, porque o procurador queria fazer uma relação entre certos livros que ela eventualmente teria comprado e as actividades sexuais que teria tido com o presidente Clinton. Estas limitações são relevantes e na maioria dos casos, quebrá-las não nos dá nenhuma vantagem em termos da luta contra o terrorismo. 

- Dizia também na sua intervenção no âmbito do Festival Literário de Macau que a cultura, eventualmente não nos livrará da barbárie. Ainda assim, uma sociedade onde o estudo de Homero, de Virgílio ou de Maquiavel nas escolas fosse comum, estaria melhor preparada ou reagiria de forma diferente, por exemplo, à crise de refugiados com que a Europa se depara? 

J.P.P. - Nós não temos nenhuma garantia que isso aconteça. A história mostra-nos também que elites altamente educadas, altamente cultas podem participar nas maiores barbáries. O caso da Alemanha nazi é disso um exemplo. Mas, dito isto, o que é fundamental é associar o conhecimento a uma vontade democrática. O que é importante é que nas sociedades as pessoas compreendam que a democracia não é um dado adquirido, a liberdade não é um dado adquirido. É alguma coisa que só se tem se se desejar ter e se se estiver disposto a combater para que se tenha. Se essa vontade existir, se essa vontade estiver inscrita na sociedade, estiver inscrita na cultura, na educação e no ensino, então conhecer Maquiavel é uma vantagem. Ou conhecer Tucídides é uma vantagem. É uma vantagem neste contexto. Por si só, de facto, não nos separa da barbárie. Mas a ignorância aproxima-nos. A ignorância aproxima-nos da barbárie. A diferença é essa. 

- Abstraindo-nos de um processo importante, que foi o processo de construção europeia que decorreu ao longo dos últimos sessenta anos, os tempos que correm são tempos perigosos. Se olharmos para os Estados Unidos, os Estados Unidos estão na iminência de ter um candidato republicano que se aproxima muito dos nossos piores medos. A Europa, por sua vez, está a braços com uma crise interna que se prolongou agora ao campo humanitário, com as reacções ao acolhimento dos refugiados a não serem as melhores... São tempos perigosos, estes que correm? Ou os tempos são sempre perigosos? 

J.P.P. - Os tempos são sempre perigosos. O caso americano e o caso europeu têm semelhanças, mas também têm diferenças. É evidente que as candidaturas de conteúdo fortemente populista espelham normalmente duas coisas, e isto é válido para a Europa e é válido para os Estados Unidos: que um número significativo de pessoas não se sentem reflectidas no sistema político. As suas escolhas, a sua vida, os seus problemas, as pessoas pensam – e muitas vezes bem – que os políticos não lhes respondem a estas questões e, portanto, há uma crise de representação nas democracias. Isso permite candidatos como Trump, como permite alguns candidatos populistas que na Europa estão também a ganhar eleitores a partir da recusa do outro, neste caso dos refugiados. Há aspectos comuns. Mas a vida política americana e a vida política europeia têm igualmente muitas diferenças. O que se passa na Europa, e eu abordei isso na Universidade, é uma degeneração muito acentuada da União Europeia sobre todos os pontos de vista, a começar pela democracia. A União Europeia respondeu à crise financeira de 2008 da pior maneira, desenvolvendo uma política, em grande parte por culpa da hegemonia alemã, que é um mero reflexo da política alemã. A Alemanha é um país que tem condições que nenhum outro tem e que impôs essa política ao conjunto da Europa, tendo como resultado uma grande estagnação económica. Ora, nenhuma parte do mundo, num processo de estagnação económica, consegue ter a mobilidade social que é necessária para acolher emigrantes e, desse ponto de vista, o que acontece quando há uma depressão económica é que cada emigrante funciona como um competidor em relação a um trabalhador francês, por exemplo. É a história do canalizador polaco. O canalizador polaco ia tirar o emprego aos canalizadores franceses. É um bocado também o que se passa com os Estados Unidos em relação a alguns acordos internacionais que permitem movimentos de pessoas, sobretudo em relação aos mexicanos. A questão não é uma mera questão de relação com o outro. Também é – e isso tem a ver com a cultura democrática – um reflexo de uma crise económica e social que é em muitos casos interna. Essa crise tem como resultado a construção de muralhas e de barreiras. O outro deixa de ser visto como uma vantagem, como objectivamente é. Em países com uma demografia completamente bloqueada, praticamente sem natalidade e com muitos problemas de envelhecimento, a imigração é um factor muito importante, de dinamismo dessas próprias sociedades e isto acontece em certos sítios da Europa. Fechar as fronteiras, no fundo, nacionaliza mais a crise económica, do que propriamente ajuda a resolvê-la. 

- Ainda é possível remendar a Europa, digamos assim? A Europa assemelha-se a um vaso “craquelado” que está há muito para se estilhaçar...

J.P.P. - Tenho muitas dúvidas. Eu, aliás, comecei por dizer na Universidade que tenho uma experiência europeia, fui vice-presidente do Parlamento Europeu e como vice-presidente do Parlamento Europeu fazia parte do “bureau”. Muitas vezes estes títulos são vazios e o “bureau” é uma organização burocrática semelhante aquelas de que a gente fala quando fala de Bruxelas. Ver como aquilo funciona, ver como uma certa elite de funcionários europeus acham que governam melhor os países do que os políticos desses países e de que os eleitores desses países... Esta crise democrática é muito profunda porque ela implicou um controlo tecnocrático muitas vezes dependente de políticas – principalmente de políticas alemãs, mas não só, também de alguns países nórdicos – de países que têm excedentes, que não têm problemas de dívidas e que, em muitos casos, não investem os seus próprios excedentes e, portanto, também ajudam à crise económica da Europa. Esses países impuseram uma política quase única, uma espécie de pensamento único em economia, que abafa qualquer alternativa política nos diferentes países. O caso grego é um caso exemplar. Os gregos podem ter cometido todos os erros do mundo. Não é esse o caso. Mas mesmo que fosse, nada justifica a maneira como a Grécia foi tratada, com um plano de austeridade que é punitivo – não tem outro conteúdo que não seja punitivo, com o próprio ministro Schäuble e os outros a dizerem que sabiam que o programa não resultava. Porque é que o impunham? Impunham para pôr a Grécia na ordem, como de alguma maneira acontece com Portugal, como acontece com a Espanha, como acontece com a França, embora ninguém o diga. Importa colocá-los na ordem e pô-los na ordem significa que hoje os parlamentos nacionais não têm aquilo que é poder fundamental num parlamento nacional, que é a capacidade para controlar o orçamento. De alguma maneira, na Europa hoje existe o mesmo problema que existia na Revolução Americana: “No taxation without representation”. Este cenário pode ser remendado? É muito difícil de remendar. Provavelmente, o caminho para a desagregação pode começar com a saída do Reino Unido ou com os problemas do Reino Unido, pode começar com o agravamento da crise dos refugiados, com o colocar em causa do Tratado de Schengen, com a ideia de que uma Europa constituída por países que passam a ter políticas próprias. Uma Europa a diferentes velocidades, onde não existem políticas comuns é uma Europa em que o caminho para a desagregação é muito provável. 

- No caso de uma eventual implosão da Europa… 

J.P.P. - A implosão da Europa provavelmente far-se-á com a institucionalização de diferentes velocidades. Não quer dizer que as instituições acabem todas: o que vai acontecer é que as nações mais ricas e mais poderosas vão ter uma economia comum e beneficiar de uma economia comum. As menos ricas e as menos poderosas vão ficar ou numa situação de sujeição às primeiras ou numa situação de mediocridade e de falta de crescimento por décadas e isso é um factor de agravamento de conflitos. A Europa está cheia de conflitos que estão debaixo do tapete. Uma das coisas positivas da União Europeia foi ter mantido esses conflitos debaixo do tapete. Mas eles estão lá. Se se começar a levantar o tapete, como se vê na Ucrânia – e não é preciso ir mais longe que a Ucrânia – eles podem surgir. Se a União Europeia se se desagregar política e economicamente, subsiste o problema de saber que entidade política poderá substituí-la no sentido de garantir a paz na Europa. Será um processo muito difícil, eventualmente até impossível. A Europa atravessará um período de muitas dificuldades, até porque não tem bem definidas as suas fronteiras. Onde é que acaba a Europa? Na Turquia? Onde é que acaba a Europa? Na Federação Russa? Esta indefinição, no caso de uma implosão, chamemos-lhe assim – será mais uma fragmentação do que uma implosão – não augura nada de bom. 

- Para Portugal, a vertente atlântica pode voltar a ser uma alternativa? Ou isto são mitos do passado? 

J.P.P. - Poder, pode. Na verdade, muitas coisas são mitos do passado e do presente, porque as alternativas são também míticas. Portugal tem uma economia muito dependente da Espanha, da Alemanha, dos Estados Unidos, de algumas relações com ex-colónias que hoje estão numa situação muito complicada, como é o caso de Angola. Com a crise dos preços do petróleo, em Angola está a passar-se um processo muito perigoso, para Angola em primeiro lugar, mas também para Portugal. Os países terão que reformular a sua relação. Estas coisas, muitas vezes, não se programam. Acontecem, porque acontecem. A tentação de as programar muitas vezes não resulta. Nós tínhamos uma política clássica, de apoio à Comissão Europeia e de crítica ao Parlamento Europeu, de crítica ao Conselho, e hoje mudamos tudo. Nunca foi programado. Foi um processo que se deu. Agora, os problemas estruturais da economia portuguesa estão lá todos e tem sido agravados pela concepção de ajustamento que em grande parte os credores... É um bocado absurdo que a União Europeia se possa designar como “os credores”. A União Europeia, o Fundo Monetário Internacional. Mostra, de certa forma, até que ponto se degradou uma imagem política. Portugal é membro de pleno direito da União Europeia. Se as coisas funcionassem como deviam, Portugal teria tanta possibilidade de bloquear uma política como tinha a Alemanha. O problema é que a maioria destes países foi colocada numa situação de tal dependência económica, em grande parte também por erros próprios, que hoje não tem nenhuma margem de manobra europeia, a não ser numa situação conflitual e para isso nunca se pode estar sozinha, porque senão acontece o que aconteceu com os gregos. 

- Uma vez que estamos em Macau e tendo em conta que por iniciativa da China se verificou a concretização de um fórum direccionado para a lusofonia, que serve sobretudo os interesses de Pequim, como é que olha para o aumento da influência da República Popular da China em Portugal? Todos estes negócios que foram feitos...

J.P.P. - É muito interessante porque por vezes quando eu quero irritar os meus parceiros para quem Singapura é um bom modelo económico – e em Portugal os que assim pensam cresceram nos últimos anos com as políticas de ajustamento – eu normalmente digo: “De facto é um país muito interessante. Está a vender quase tudo ao Partido Comunista Chinês”. Eles ficam muito irritados. No outro dia assisti a uma cena semelhante no parlamento inglês, em que um deputado trabalhista oferece “O Livro Vermelho” de Mao Zedong ao ministro conservador, dizendo: “Pegue lá. Você está a vender as coisas dos ingleses ou quer vendê-las ao Partido Comunista Chinês, mas ao menos estude o que dizia Mao Zedong”. Evidentemente é irónico. Repare, eu acho que quando nós olhamos para trás, o governo Sócrates é um governo com uma péssima imagem, responsável pela bancarrota e por todo um conjunto de descalabros financeiros. Eu acho que o governo de Passos Coelho à distância vai ser visto de uma forma muito idêntica em grande parte pela maneira como lidou com a crise bancária e pela maneira como fez as privatizações. 

- Ao longo destes últimos anos, tem havido uma crise de liderança em Portugal, tanto a nível partidário como a nível das instituições. Estamos a assistir a um mudança de fase, com a saída de Cavaco Silva da presidência e a entrada de Marcelo Rebelo de Sousa. Irá mudar alguma coisa? 

J.P.P. - Eu penso que sim. Se Marcelo Rebelo de Sousa permanecer fiel ao terreno em que colocou a sua candidatura, mesmo que fosse uma candidatura que se colocou numa perspectiva afectiva, numa relação directa com as pessoas, evitando pronunciar-se sobre algumas questões políticas mais quentes, mesmo assim Marcelo Rebelo de Sousa colocou-se naquilo que ele chamou “esquerda de direita”. No fundo, ele colocou a sua candidatura num campo que não é de direita: o centro-direita ou centro-esquerda. Isso, na conjuntura política portuguesa é muito importante, porque quebrou de alguma maneira uma radicalização à direita que se tinha dado essencialmente com o governo de PSD e CDS e que ainda continua em muitos aspectos, principalmente no PSD. Ao quebrar essa hegemonia, chamemos-lhe assim, que começava logo do PS para a direita, criou um terreno central que lhe permite não só apoiar um governo de António Costa – que é também um governo relativamente moderado – e eventualmente reconstruir um centro político que a crise económica matou em muitos países, não foi só em Portugal. Um dos aspectos da crise económica foi, por exemplo, destruir uma parte importante do sistema político de muitos países, que se nota não tanto na perda de hegemonia por parte dos grandes partidos, mas pela perda da importância eleitoral. Eles continuam a poder ganhar eleições, como se verificou em Espanha com o PP, como se verificou em Portugal com o PSD, mas depois têm muita dificuldade para governar, porque suscitam uma recusa por parte de todo o resto do espectro político. Este tipo de anomalias – como é a anomalia com a Frente Nacional em França, como é o que se está a passar na Eslováquia e na Hungria – este tipo de perturbações no sistema partidário tradicional, que normalmente assentava em partidos sociais-democratas, em partidos socialistas ou em partidos democratas-cristãos conservadores – é um dos efeitos desta crise económica. O nosso sistema político está a mudar. Agora, a mudar para onde, é muito difícil de prever. Há uma tendência contraditória: ao mesmo tempo de radicalização do voto. Por exemplo, nas últimas eleições houve gente que veio de votar do PSD para o Bloco de Esquerda, que é uma coisa que à primeira vista seria impensável. Votaram assim porque o PS não lhes deu resposta. O PC, apesar de tudo, nas últimas eleições legislativas manteve o seu eleitorado, o que é um feito na Europa dos dias de hoje. Há uma deslocação do voto – como acontece em Espanha com o “Podemos” – à esquerda. Ao mesmo tempo, há uma maior aproximação da esquerda ao exercício do poder, como se vê com os acordos em Portugal e eventualmente se houvesse acordo em Espanha entre o Podemos e o PSOE – ou se puder haver, não sei – isso mostra que ao mesmo tempo que o eleitorado abandona os partidos tradicionais ou pela abstenção ou deslocando- se à esquerda, os partidos à esquerda aproximam-se de soluções mais moderadas de poder. Não sei como é que isto vai resultar, mas é uma mudança. 

- Uma última questão, em jeito de provocação. Pacheco presidente? Ou vive bem no meio dos seus 200 mil livros? Isto a propósito do célebre cartaz da kalashnikov...

J.P.P. - O célebre cartaz. O cartaz anónimo em que eu apareço com uma kalashnikov. A fotografia é verdadeira. Eu, de facto, fiz um programa de televisão com uma kalashnikov e, portanto, vejo com alguma ironia o cartaz. Não, eu... A ideia de que a intervenção política se faz essencialmente através de métodos tradicionais não corresponde à verdade. Eu escrevo sobre política e, sem me querer colocar num grande pedestal, reconheço alguma influência no que escrevo. Vejo isso pela maneira como habitualmente se reconhece a influência: é quando aquilo que se diz se torna anónimo. Ou seja, já não é apenas referido ao seu autor, mas ganhou o seu caminho e acho que isso existe, mas verdadeiramente aquilo a que eu me tenho dedicado nos últimos anos... Aliás, em bom rigor, eu mesmo quando tinha uma actividade política mais intensa continuava a escrever e a trabalhar sobre outras matérias. Aquilo que me dá prazer é, neste momento, tentar salvar o maior número possível de artigos e de bibliotecas, salvando os papéis, os documentos, as informações, tentando criar em Portugal – para já a nível privado e eventualmente depois a nível público – aquilo que poderá ser uma espécie de documentação contemporânea. Há algumas coisas que eu sei que salvo que se não salvasse desapareciam. Um exemplo é uma ideia de arquivo que abrange não apenas aquilo que é considerado o material nobre do arquivo – o documento – mas também cadernos com notas de reuniões, objectos, pins, autocolantes, cartazes...

- Material de campanha? 

J.P.P. - Material de campanha e, em alguns casos até material que não é de campanha. Por exemplo, se quiser hoje reconstituir em Portugal o ambiente das grandes manifestações dos últimos dez anos – uma grande manifestação contra o Sócrates, uma grande manifestação do “Que se Lixe a Troika” – tem que ir ao meu arquivo. Porquê? Porque com um conjunto de voluntários – é um arquivo que não tem um tostão do Estado, é feito com voluntários e com o meu dinheiro, claro – nós recolhemos no final dessas manifestações, para além de documentar a manifestação, nós recolhemos aquilo que as pessoas abandonaram: cartazes, feitos em casa, de cartolina – muitas vezes até muito ingénuos, outros completamente incompreensíveis – que nos dão o ambiente político numa perspectiva que não é apenas a perspectiva formal da vida política.


Fonte: PONTO FINAL, 8 de Março de 2016


Herança portuguesa é “uma relíquia” valiosa 


José Pacheco Pereira defende que a presença portuguesa em Macau é “anacrónica” por estar presa num tempo histórico e que sobrevive “pelo seu valor cultural”. Para o convidado do Festival Literário - Rota das Letras, a presença portuguesa no território tem “toda a utilidade para o Governo” local 

Em Macau pela segunda vez, depois de ter estado na inauguração do Centro Cultural em 1999, José Pacheco Pereira não ficou indiferente às mudanças na cidade, confessando que “é difícil reconhecer Macau, com excepção daquela parte mais histórica”. 
“As minhas impressões são completamente superficiais. De facto, estive cá uns dias com o presidente Jorge Sampaio e agora encontro uma cidade muito distinta. Sensação que é certamente favorecida pela circunstância de estar no meio dos casinos, e para quem vem de um país [Portugal] em que não há dinheiro para nada. Subitamente, a sensação de opulência e de que aparentemente há dinheiro para tudo é de facto uma grande diferença”, disse ontem o historiador, num encontro com a comunicação social antes de uma sessão na Universidade de Macau (UM), onde deu uma conferência sobre a Europa. 
Questionado sobre a presença portuguesa no território, Pacheco Pereira caracterizou-a de “anacrónica”, por sobreviver graças ao seu “valor cultural e histórico”. “Não há mal nenhum, é anacrónica porque está presa num tempo histórico. É uma relíquia, mas as relíquias valem”, defendeu. Por isso mesmo, explicou que Portugal peca por uma certa “ignorância” sobre os países que outrora foram seus. “Ao mesmo tempo temos uma nostalgia do império que não é agressiva, ninguém pensa que pode voltar a ser português, mas uma certa ideia romântica de que a identidade portuguesa se manifesta por estas coisas esquisitas, como ir a Malaca e encontrar uma comunidade que acha que fala português”. 
“Algumas coisas funcionam mas, no essencial, quando um país como Portugal tem os problemas como tem no plano económico, tende-se a virar mais para si próprio, ou então a ter uma relação utilitária com os seus parceiros”, disse Pacheco Pereira, que é um dos convidados da edição deste ano do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. 
De acordo com Pacheco Pereira, esta particularidade portuguesa tem todo um valor agregado na RAEM. “Tem toda a utilidade, um Governo consciente gosta da diferença. Claro que há diferenças que dão dinheiro, ser a capital do jogo dá dinheiro. Esta dá mundo, o que é uma coisa com valor”. 
Sobre a política externa de Lisboa na defesa dos interesses das comunidades portuguesas, Pacheco Pereira confessa “não ser especialista na matéria”, mas considera que houve um desinvestimento do português em alguns países. “Desinvestimos no Instituto Camões, nos leitorados das Universidades e substitui-se isso por uma certa ideia de que a diplomacia económica resolvia os problemas da influência cultural, mas não resolve”. 

Um Portugal “paroquial” 

No contexto europeu, estes últimos anos tornaram-se “mais paroquiais” para Portugal, entende o historiador e comentador político. “Houve uma altura em que o país olhava para a Europa como um factor de libertação, o padrão de vida europeia, o facto de se poder circular. Era uma grande diferença em relação a pessoas da minha geração, por exemplo”, começou por explicar. 
Este facto deve-se, em parte, à crise económica que, “teve o efeito de atirar para fora muitos jovens qualificados e, ao mesmo tempo, ter-nos tornado mais paroquiais, mais cosmopolitas. Para um país como Portugal é um recuo”. 
Questionado sobre a forma como a China é vista em Portugal, Pacheco Pereira frisou que continua a haver “ignorância”. “Quando discutimos a globalização estamos sempre a pensar na China, mas mesmo assim há muita ignorância sobre a realidade concreta da política chinesa a não ser da circunstância que uma grande parte de Portugal foi comprada por empresas, algumas estatais, chinesas”. 
Neste âmbito, o professor universitário avalia o sistema político da China como uma “experiência única”. “É uma experiência que não tem nenhum paralelo porque que é um capitalismo com sucesso dirigido por um partido comunista. A China tem um sistema político que na prática depende da burocracia, e dos mecanismos de poder que são típicos de um grande partido comunista, e ao mesmo tempo tem uma economia que necessariamente irá gerar tensões sobre o sistema político”, defendeu. 
Por isso, acredita que essa solução “não é sustentável”, por criar uma “tensão política que não é resolúvel apenas pelo crescimento económico”. Numa antecipação à conferência de ontem, intitulada “A Liderança Alemã, a Diversificação Europeia e o Futuro da União Europeia”, Pacheco Pereira advertiu que a Europa caminha para “uma degradação dos mecanismos democráticos”. 
O que se está a passar na Europa não a faz caminhar para um modelo de democracia musculada. O processo europeu está a ser feito no sentido de concentrar uma parte importante dos poderes nacionais na burocracia de Bruxelas, e nos Governos que hoje mandam na União Europeia, especialmente o alemão”, frisou.


Fonte: Jornal Tribuna de Macau, 8 de Março de 2016

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