domingo, 28 de fevereiro de 2016

O que diz Nietzsche

“Nós, os sem-pátria. – Não faltam hoje europeus que possam dizer-se sem pátria, no sentido lisonjeiro com alguma razão para o fazer; é a eles que recomendo a minha secreta sabedoria, a minha ‘gaia ciência’. A sua carga é penosa, incerta a sua esperança; é necessária uma verdadeira habilidade para lhes inventar consolações... e para quê? Filhos do futuro, como é que nos havíamos de sentir em nossa casa! Nenhum ideal nos pode agradar no seio de hoje? (...). 

Não, não gostamos da humanidade; mas, por outro lado, somos muitíssimo pouco ‘alemães’, no sentido que a palavra tomou nos nossos dias, para poder falar em favor do nacionalismo e do ódio das raças, para nos regozijarmos com esta lepra do coração, com este envenenamento do sangue, que faz com que os povos da Europa se isolem, criem barricadas, se ponham de quarentena. Somos muito imparciais para isso, maus espíritos e delicados, estamos muitíssimo bem informados, e viajamos muito (...). Nós, sem pátria, somos de origens diversas de mais, somos de raças misturadas demais para sermos ‘homens modernos’; somos, portanto, pouco tentados a ir participar nessas auto-admirações étnicas e nessas impudicidades, que se exibem na Alemanha como se fossem um emblema lealista; parecem duplamente falsas e inconvenientes na pátria do ‘sentido histórico’. Somos, numa palavra (...) bons europeus, herdeiros da Europa, seus herdeiros ricos e mimados, mas ricos também de uma superabundância de obrigações acumuladas por milhares de anos de espírito europeu”. - Nietzsche, A Gaia Ciência, Guimarães, 1987. 

Se os adoradores de ídolos e os nacionalistas pronto-a-vestir lessem as obras de Nietzsche e não apenas umas passagens perceberiam do que se trata. E trata-se de cosmopolitismo. Este parágrafo, em toda a sua extensão, é um elogio ao universalismo cosmopolita e uma profissão de fé nas suas virtudes. É uma crítica ao que o tresloucado alemão considera o ‘espírito moderno’, corporizado na afirmação das nações que ele vê como nefasta por quebrar a mestiçagem que julga encontrar em solo europeu. Não é por acaso que Hitler nunca foi apreciador de Nietzsche, ao contrário do que refere a mitologia. Percebeu bem o que havia ali de misturada e de crítica ao espírito alemão. Não o percebeu quem fez uma leitura enviesada do filho do pastor ou aprendeu o pouco que sabe em obras do género “Nietzsche em 90 minutos”.


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