sábado, 27 de fevereiro de 2016

Não há futuro para a identidade da "comunidade macaense"?

Roy Xavier
Sem papas na língua, o académico de ascendência lusa de Macau Roy Eric Xavier criticou os líderes da "comunidade macaense" pela sua "incapacidade de chegar a uma conclusão" sobre a definição do papel desta mesma comunidade e sobre a "identidade macaense". O director do projecto de estudos macaenses e portugueses e professor no Instituto de Estudos Sociais da Universidade da Califórnia, em Berkeley, acusou os líderes macaios de terem "um sério nível de alheamento" e "miopia cultural" em relação à realidade de Macau actual.
Em entrevista ao jornal Hoje Macau, Roy Xavier acusou os "líderes da comunidade macaense" de basearem a preservação da "cultura de Macau" na ideia de que certas práticas conseguem ser passadas para as gerações mais jovens, sendo incapazes de "reconhecer as raízes multiculturais de Macau". "As tentativas de determinar a cultura de Macau com ênfase no passado colonial português poderá isolá-los ainda mais da comunidade geral", defendeu. A insistência no uso do português "define uma pequena comunidade maquista", mas a "falta de acção" dos "líderes da comunidade" poderá ter "repercussões a longo prazo na relação entre Macau e a China, bem como colocar em risco a capacidade da China de continuar a usar Macau como porta de saída comercial". Para ele, "uma resolução para as questões da identidade macaense é admitidamente difícil de atingir dadas as pressões em Macau e na China no século XXI". Parte do problema "é a existência de agendas étnicas que tendem a determinar a alocação de recursos públicos, que até agora eram abundantes", fazendo questão de referir que a "discussão sobre a identidade continua desligada das preocupações locais apesar das associações macaenses beneficiarem do financiamento do Governo", tanto no território como no estrangeiro. "Este apoio é baseado na ideia de que o património e a história de Macau devem ser preservados através da orientação dos macaenses locais", afirmou, salientando que há também a expectativa de que Macau vai continuar a ser uma plataforma para a lusofonia e talvez para países de língua inglesa onde muitos "descendentes de macaenses" vivem. No entanto, lamentou o "pouco progresso" que tem acontecido em ambas as frentes.
Miguel Senna Fernandes
A reacção não se fez esperar: Miguel Senna Fernandes, o presidente da Associação dos Macaenses, disse que não sabe "se Roy Xavier está em Macau, se percebe de Macau ou da comunidade macaense". "Ele tem uma noção de macaenses com a qual não concordo e nem sequer dá a conhecer o que é, para si, ser macaense. Fala da diáspora e de muitas outras coisas, mas não levo as críticas com a mínima seriedade", disse em declarações ao mesmo jornal, acrescentando que Roy Xavier "não sabe o que a comunidade macaense tem feito desde a transferência de soberania", fazendo as suas considerações "de ânimo leve e gratuitamente", pelo que estas "não devem ser levadas a sério". "Ele conhece tanto da comunidade macaense como eu dos índios da América", ironizou. "Se nos chama de culturalmente míopes, ele deve sofrer de hipermetropia, que é olhar as coisas de longe e ver mal. Seja como for, respeito as críticas, só que se nota um certo desconhecimento sobre aquilo que está a ser feito em Macau e que não está no segredo dos deuses. (...) Ninguém está a fazer um apelo ao uso da língua. O discurso da comunidade, e isso ele não sabe, não é o de que um macaense tem que falar português (nota: Roy Xavier não fala português). O que a comunidade defende é que não nos esqueçamos da língua portuguesa porque, em última instância, é sempre um veículo de cultura", frisou.
Francisco Manhão
Por sua vez, Francisco Manhão, presidente da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau, disse não ter gostado das ideias apresentadas por Roy Xavier, ressalvando que cada pessoa tem as suas visões: "Cada um tem a sua forma de pensar e diz o que quiser. Ele fala dos líderes da comunidade macaense, e eu não sou um líder, mas não entendo a realidade dessa maneira. Não gostei (das críticas), mas cada um sabe de si. Agora quero ver é se os líderes macaenses vão responder".
António José de Freitas
"Denota-se uma preocupação que acho que é de todos nós e que tem a ver com o contexto da própria comunidade macaense, por isso, não penso que esta questão seja apenas uma responsabilidade dos considerados líderes da comunidade", disse outra figura "ilustre", António José de Freitas, o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau, ao sustentar que essa reflexão deve ser geral, incluindo pessoas que, embora não tenham nascido em Macau, aqui estão radicadas (nota: macaenses não nascidos em Macau é uma contradição em termos). Ainda assim, António José de Freitas acredita que seria útil que Roy Xavier definisse o que ele entende por "cultura macaense" e apontasse medidas concretas que deveriam ser adoptadas tendo em vista a sua preservação.
Enquanto continuar a haver gente que continua a confundir "comunidade portuguesa de Macau" ou "comunidade portuguesa macaense" com simplesmente "comunidade macaense", tendo assim diferentes conceitos sobre o que é o macaense quando na verdade não há diferentes conceitos porque só há um conceito sobre o macaense (nota: o macaense é pura e simplesmente a pessoa de Macau, ou seja, a pessoa nascida em Macau, independentemente da sua nacionalidade, raça, língua materna, cultura ou credo; é como um bávaro que é uma pessoa da Baviera, um transmontano que é uma pessoa de Trás-os-Montes, ou um siberiano que é alguém da Sibéria: não são nacionalidades), fica difícil debater. Mas pronto, Macau sã assi e a malta daqui gosta muito de inventar e arranjar problemas só mesmo por arranjar, sã nunca??

1 comentário:

FireHead disse...

«Roy Xavier defende-se em novo artigo

Sublinhando que os artigos que recentemente publicou pretendiam, acima de tudo, mostrar preocupação pelo facto da identidade macaense estar em perigo de se marginalizar na China, Roy Xavier veio a público responder aos críticos. Além disso, avançou com uma definição de “Macaense” mais abrangente

No seguimento do desagrado mostrado por várias figuras da comunidade macaense sobre as suas ideias, Roy Xavier publicou a terceira parte da série de artigos “Jogo Perigoso”, onde responde a críticos que consideraram que a sua “caracterização da discussão não deve ser levada a sério ou é de certa forma inválida”.
“Tal como António José de Freitas mencionou, de forma correcta, o objectivo dos artigos é mostrar preocupação pela facto da identidade Macaense estar em perigo de se tornar marginalizada na China”, isto porque “a discussão sobre a identidade, até agora, tem sido limitada, desfocada e por vezes historicamente imprecisa”, refere o professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Para o académico, “não é uma questão simples das gerações mais jovens falarem português no futuro”. Assim, clarifica que não defendeu que “as contribuições de Portugal para Macau já não sejam importantes”.
“Todo Macau deve celebrar as conquistas dos Maquistas em Macau e de outros portugueses mestiços pela Ásia ao longo dos últimos cinco séculos”, diz, referindo no entanto que “não é do interesse, a longo prazo, dos Maquistas considerarem-se separados da sociedade de Macau”.
Deste modo, considera que “a melhor estratégia é demonstrar mais solidariedade com todos os Macaenses, através do desenvolvimento de mais programas que contribuam para o bem maior”. Frisando que não pretendia dizer que pouco foi feito desde a transferência de soberania, Roy Xavier acha que “tendo em conta os recursos e talentos de Macau, muito mais pode ser feito no futuro”.
Na sua opinião, uma contribuição importante seria a apresentação de “uma definição clara de quem é que os Macaenses são, incluindo Maquistas em Macau”.
Assim, define macaenses como os portugueses euroasiáticos (Maquista ou Tou San) nascidos em Macau ou os descendentes de portugueses euroasiáticos nascidos ou com ligações familiares a Portugal, Goa, Índia Ocidental, sul da China (especialmente Macau, Hong Kong, Cantão, Xangai) Japão, Malásia, Indonésia ou Timor. “Os Maquistas são, simultaneamente, uma subcultura em Macau e membros de uma sociedade maior”, explicou Roy Xavier.
Citando o trabalho de Jorge Morbey sobre o “hibridismo cultural de onde essencialmente nasceu a cultura Macaense” e que criou um “elemento único da cultura da região que existe a par das culturas chinesa e portuguesa europeia”, considera que, “quando houver uma maior aceitação desta história cultural única, sem o fardo de ter de defender elementos portugueses ou Maquistas tradicionais que se pensa estarem sob ataque, as vantagens serão claras”.
Na sua perspectiva, a nova abordagem beneficiaria os macaenses que trabalham na indústria do turismo de Macau, mas também estudantes e professores com acesso a toda a “riqueza de informação histórica, documental e biográfica” na posse das famílias e associações macaenses. Esta informação ajudaria a tornar as narrativas históricas de Macau mais precisas.
Para além disso, como os macaenses têm uma tradição de ligação ao comércio internacional e mantêm muitas relações entre si nesse nível, advoga que, se juntar a este facto, a “existência de uma rede mundial de profissionais Macaenses e portugueses, que continua largamente por explorar”, então “os Macaenses em Macau poderiam usar essa rede para fomentar a diversificação da economia local e ajudar a RAEM na diminuição da sua dependência do jogo”.»


Fonte: Jornal Tribuna de Macau