sábado, 12 de dezembro de 2015

Opiniões DN

Numa Europa Ocidental que se habituou a aceitar a diversidade por via da imigração (até quando?) e conta com o exemplo suíço de nação com vários povos, a barbárie dos anos 1990 nos Balcãs custou a entender, como hoje custa perceber a que assola a Síria. Mas o problema estava lá desde o fim dos tais impérios, só disfarçado pelos ditadores ou pela vigilância internacional, como a feita ao Líbano até 1975 e depois de 1990. Muçulmanos contra cristãos, sunitas versus xiitas, turcos contra curdos, curdos versus árabes, árabes contra judeus, tantos ódios velhos de séculos (dizem que os alauitas descendem dos cruzados, pelos olhos azuis e um islão heterodoxo). Ninguém defende trocas de populações para evitar as limpezas étnicas, mas umas e outras estão a acontecer hoje e a velocidade acelerada. E com tantas potências envolvidas, uma solução pragmática para travar as matanças vai ser ainda mais difícil do que na ex-Jugoslávia. Tornou-se tabu mexer em fronteiras (Leonídio Paulo Ferreira).

As pessoas das letras podem permitir-se falar. Entre o povo, o fascismo islâmico é quase inominável - chiu!, não vá dar argumentos aos Trump e às Le Pen desta vida... -, mas a intelligentsia, essa, pode premiar o 2084: La Fin du Monde (2004, O Fim do Mundo), livro do argelino Boualem Sansal. Presente em quase todas as listas premiáveis deste Outono literário de Paris, ganhou o grande prémio do romance da Academia Francesa. Se bem se lembram, este ano começou com o lançamento do livro de Michel Houellebecq, feito de forma discreta porque coincidiu com a matança dos desenhadores do Charlie Hebdo. O romance de Houellebecq, Submissão, é uma ficção política em que os islamistas conquistam a França, pelo voto, já daqui a meia dúzia de anos, aproveitando as hesitações da esquerda e da direita moderada em relação a Marine Le Pen. O livro de Sansal manda para mais tarde o desfecho - sugerindo uma data que lembra 1984, a do livro de Orwell - e é também sobre um totalitarismo. Mas não se ganhou com a demora: "O 2084 é bem pior que o meu Submissão", disse Houellebecq. E não se referia ao estilo, mas ao destino de todos nós sob o fascismo islâmico (Ferreira Fernandes)

Mesmo que não vença nenhuma região na segunda volta, Marine Le Pen é já a grande vencedora da política francesa. A questão é se será nos próximos ciclos eleitorais. Sabemos que o sistema beneficia os dois grandes partidos (Socialista e Republicano) e restringe o acesso ao poder e ao orçamento de partidos das franjas. Em tese, o sistema favorece a estabilidade nacional e a continuidade euro-atlântica da França. Só que, na prática, o mesmo sistema torna inatingível à Frente Nacional traduzir seis milhões de votos em lugares, consolidando a cada eleição uma frente anti-Frente. Isto tem duas consequências: primeiro, coloca a FN no centro do debate político e da incongruência do sistema eleitoral; segundo, alimenta o sentimento de injustiça política e de desprezo pelo eleitor, que nunca vê o seu voto conquistar representatividade. Ou seja, reforça o quadro de exclusão que já percorre muitos eleitores da FN e torna as reivindicações de Le Pen mais pertinentes aos olhos de quem a segue. Por isso ela vencerá estas eleições mesmo que perca para o voto útil nos outros partidos: a sua mensagem continua a enraizar-se entre muitos franceses, como prova a triplicação de votos entre as regionais de 2010 e esta primeira volta, e a sua popularidade aumenta em contraste com as duas principais caras do sistema e seus directos adversários, Sarkozy e Hollande. Desta forma, o que pode ser mais um momento de voto de protesto no governo (qualquer intercalar) transforma-se lentamente num voto de convicção na FN, capaz de levar a sua líder ao Eliseu daqui a uns meses. Então, como vai Le Pen explorar um possível infortúnio? De três formas: continuar a financiar-se na Rússia, aumentar os decibéis da frente anti-UE que lidera no Parlamento Europeu, vociferar contra o sistema eleitoral francês. Os frentismos continuarão a marchar na segunda-feira (Bernardo Pires de Lima).

Uma só força vence a gloriosa misericórdia: a soberba. Esse é o terrível pecado dos fariseus: a cegueira de se sentir sem pecado, a arrogância de se fazer justo e juiz, a loucura de desdenhar a misericórdia (João César das Neves).

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