segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

III Colóquio ADM dos Macaenses

Decorreu no passado fim-de-semana o III Colóquio da Associação dos Macaenses (ADM): O Testemunho para o Futuro (第三屆土生葡人座談會 - 薪火相傳), no Instituto Politécnico de Macau (IPM). Foi mais um debate sobre a "identidade macaense", essa coisa estranha, que, segundo os presentes no evento, parece só estar a ser motivo de reflexões após a entrega de Macau à China, coisa que aconteceu faz já 16 anos no próximo dia 20. Há agora a preocupação em garantir a transmissão da "herança macaense" às gerações futuras.
"Muito provavelmente não (haveria a necessidade de discutir a "identidade macaense") porque isto é uma manifestação da nossa ligação à portugalidade. O facto de Macau já não estar sob administração portuguesa deixa-nos à mercê de nós próprios", disse o líder da ADM, o advogado Miguel de Senna Fernandes, ao jornal Tribuna de Macau. "A comunidade tem que saber usar os seus meios para fazer valer pontos de vista e amadurecer em termos de atitude comunitária. Se, no passado, mais ou menos nos ancorávamos a Portugal, hoje estamos por nossa conta e temos que nos fazer valer. Isto demonstra inequivocamente consciência da maturidade desta comunidade".
A investigadora Beatriz Basto da Silva, que não é macaense, falou da "preocupação tardia" sobre a "identidade macaense". "Estamos a começar a fazer isto com muito atraso e porque estamos em perigo de perder o nosso espaço de manifestação da cultura. Temos de nos identificar, conhecermo-nos uns aos outros e, para isso, são importantes estes eventos. Pena é que não esteja mais participado. Critico a ausência de muitos macaenses que são capazes de concordar connosco na rua, até são capazes de se exaltar por não haver uma identidade, mas nestes momentos não aparecem", lamentou, dizendo também que "não há uma falta de preocupação com as questões (da identidade)", mas sim indiferença, "porque as pessoas ainda não se consciencializaram de que a sua condição de macaenses está em perigo". Também a participante Marta Silva abordou o mesmo problema: "Há pouca gente a aderir a estes eventos e à discussão sobre estas matérias". 


Em relação ao uso da língua portuguesa, Miguel de Senna Fernandes falou em "muitos mitos a isso ligado" e "que queríamos desmistificar", nomeadamente, o facto de a língua já não ser utilizada. "Isso é mentira. O português pode não ser língua útil, a língua de trabalho para muitos macaenses mas está sempre lá. Tem um estatuto muito engraçado, inerente a todos os macaenses". Para ele, um macaense que não fala português tem a consciência da necessidade de aprender a língua de Camões. "Há uma tendência para diminuir o uso da língua portuguesa, mas ela não está totalmente arredada da identidade. E não podia ser. Claro que quando nos queremos identificar, não nos podemos alhear do que está à nossa volta, porque as referências físicas também contam. É uma comunidade que se baseia na miscigenação, logo aí é uma confluência de várias matrizes. Só estamos a falar da matriz portuguesa (e porque é que se haveria de falar de outras matrizes se supostamente estamos a discutir a identidade dos 澳門土生葡人, isto é, dos portugueses de Macau, hem?), mas não é a única. Há outra componente que é muito importante nos dias de hoje, a comunidade chinesa. Nós temos que assumir essa conjugação, que não é fácil", disse. Nesse âmbito, a ilustre macaense Anabela Ritchie, antiga presidente da Assembleia Legislativa que começou a aprender a ler e a escrever chinês aos 50 anos, disse que é importante estudar as línguas: "Por mais ocupados que estejamos, temos que reservar um bocadinho do nosso tempo para o estudo, porque só estudando podemos conhecer as coisas e isto aplica-se às línguas". Ainda assim, "muitas vezes ouve-se que o macaense fala português, inglês e chinês, mas eu digo que fala, ponto e vírgula, porque o que acontece é que vamos adquirindo vocabulário mas às vezes estruturalmente somos muito pobres". Quanto ao português, "Não sei porque é que em Macau há esta dificuldade, quando o português é língua oficial. Ao fim de 10, 12 anos (da transferência de soberania) já começava a notar uma ilusão no ensino da língua e agora já noto mais"
De acordo com um inquérito da ADM, é possível concluir que o português é a língua mais falada dos 413 luso-macaenses inquiridos, sendo que 276, ou seja, 42%, dizem falar português. Contudo, segundo frisou o vice-presidente da ADM, José Basto da Silva, "nos inquiridos com mais de 60 anos a percentagem é de 56% e depois começa a baixar à medida que as idades são menores. Claramente há um declínio da língua portuguesa e um equilíbrio de outras línguas, como o inglês ou chinês, nas gerações mais novas". A língua de Shakespeare aparece em segundo lugar, com 29% das respostas, enquanto que o chinês continua a ser o calcanhar de Aquiles da comunidade, ao surgir em terceiro lugar, com 24% de falantes. 


Outros dados indicam que a "comunidade macaense" se identifica a si própria, em primeiro lugar, pela culinária e tradições, existindo um "pessimismo em relação à manutenção da cultura", sentimento "maior nas faixas etárias mais velhas". "Para garantir a continuidade de uma geração é necessário que cada casal tenha, pelo menos, dois filhos. Com menos, a cultura cairá. À medida que a população diminui, a cultura segue o mesmo ritmo. É importante considerarmos que, se nos focarmos só em transmitir a nossa linguagem, modo de vida ou gastronomia para as próximas gerações a quem iremos passar se não trabalharmos para isso?", perguntou José Luís Pedruco Achiam, um dos oradores do colóquio. 
Graças ao inquérito realizado, podemos ficar a saber (coisa que para mim não é novidade nenhuma) que hoje em dia na definição do "macaense" a religião católica (um dos principais factores da portugalidade) também já não é mais uma característica dos portugueses de Macau, o que é de lamentar. "A gastronomia é óbvio porque é algo palpável, é o tangível, é altamente sensorial, e as pessoas identificam-se mais facilmente com estes sinais que são bem visíveis", salientou Miguel de Senna Fernandes. "Será que temos vergonha, somos tímidos em assumir o que somos?", questionou. Uma participante respondeu-lhe assim: "Eu não sinto vergonha por ser macaense, mas tenho dificuldade em me definir. Sinto a minha identidade ameaçada. As transformações de Macau fazem-me sentir que Macau já não é nosso. Está a ser invadido por maneiras de viver que não são nossas. O mesmo se passa com parcelas da cultura portuguesa com que não me identifico. Se me perguntar o que é ser macaense, não sei definir".
Quo vadis, "macaenses"? Ou melhor, quo vadis, portugueses naturais de Macau (澳門土生葡人)?

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