quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Opiniões DN

A situação é complexa, mas perfeitamente sustentável, desde que enfrentada de forma séria, atenta e corajosa. Mas este segundo elemento inspira as principais ameaças. Portugal não precisaria de novo tratamento se tivesse juízo, mas não parece inclinado para aí. Deste modo os verdadeiros motivos para a eventualidade de novo aperto financeiro são políticos. Paradoxalmente, aqueles que mais dizem abominar a troika são quem mais contribui para acelerar o seu regresso. Os discursos eleitorais insistem em visões ingénuas, irresponsáveis ou abertamente irrealistas, mostrando desconhecimento básico da situação. Por outro lado, o resultado da votação pode, ele próprio, criar um enquadramento que dificulte a tomada das medidas que evitariam a queda (João César das Neves).

A diferenciação religiosa, que é a mais perigosa inspiração do terrorismo para sempre lembrado pelas Torres Gémeas de Nova Iorque, está presente. Tempo de lembrar a intervenção de Oriana Fallaci quando, em 2001, em La Rage et l"Orgueil, apelou à mobilização contra o inimigo, parecendo evidente que a defesa da segurança perante as agressões do terrorismo, que mata friamente inocentes para enfraquecer a confiança das sociedades civis nos governos legítimos, é um dever dos Estados coberto pelo direito. Mas é incompatível com a generalização do medo, que perturba a identificação das diferenças das situações no caso presente, que não pode invocar o conceito de Bento XVI ao dizer, então, porque tinha em mente o terrorismo, que enfrentávamos um "credo beligerante", porque o que enfrentamos agora é um drama humano que tem, entre outras numerosas causas, erros ocidentais, designadamente intervenções militares sem fundamento, ou esquecendo a regra prudencial de escolher um mal menor como, por exemplo, aconteceu no Iraque. A única maneira de deter esta emigração está em conseguir estabelecer um bom governo na origem dos fugitivos, e na eliminação das empresas que crescem os lucros na medida em que causem a transformação do Mediterrâneo num cemitério. Do que se trata agora é de direitos humanos e da proclamada "Terra casa comum dos homens" que se desmorona, urgindo limitar as fracturas do denominado "Mundo Único" (Adriano Moreira).

Catalães, mas também bascos, escoceses, flamengos e italianos do Norte. O separatismo está na moda na Europa Ocidental e o mais surpreendente é que quem quer divorciar-se, seja de Espanha, Reino Unido, Bélgica ou Itália, não são as regiões pobres; aquelas que poderiam atribuir as causas dos males ao governo central. Na realidade, as regiões onde os movimentos separatistas são fortes ou são as mais ricas ou perto. A Catalunha é um exemplo bem conhecido, que contesta contribuir demasiado para o orçamento espanhol, crítica que se soma à defesa da língua e à memória de uma história própria para a construção do discurso independentista. No País Basco, de singularidade ainda mais pronunciada frente a Madrid, o discurso é idêntico, com a diferença do campo nacionalista (48 deputados dos 75 do parlamento regional) se dividir entre um PNV moderado e um Bildu de combate, muito a recordar as velhas reivindicações independentistas da ETA. Os mesmos argumentos egoístas acontecem na Bélgica, onde nas últimas eleições a Aliança Neoflamenga obteve na Flandres um terço dos votos graças a uma campanha de desafio ao governo de Bruxelas e às queixas de ser a região a sustentar os valões (francófonos). O fenómeno repete-se na Itália, com o êxito da Liga Norte a basear-se na exaltação da produtividade de Milão e de Veneza, a Padânia, por comparação com o preguiçoso Mezzogiorno. É uma regra esta a do separatismo dos ricos que também se aplica q.b. aos escoceses: tire-se a Grande Londres, capital financeira da Europa e terra de asilo de milionários, e a Inglaterra deixa de ser mais próspera do que a Escócia. Aliás, é curiosa a fraqueza do nacionalismo galês. Será porque o País de Gales é tão mais pobre do que o resto que desunir-se só traria desvantagens? (Leonídio Paulo Ferreira)

Já tenho uns anitos razoáveis e, dos que me lembro, nenhum foi vivido sem marcianos. O primeiro pugilista de que guardei o nome, Rocky Marciano (1923-1969), não foi por causa dos 43 K.O. com que arrumou os adversários (recorde até hoje), mas porque o supus vindo num disco voador. Afinal, era só uma corruptela da família italiana Marchegiano, imigrada na América. Entretanto, da banda desenhada, viajando com Flash Gordon a Marte, até ser invadido, em filme, pelos cabeçudos do Marte Ataca!, o planeta vermelho nunca me abandonou. A ligação cavou fundo com referências mais eruditas. A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, e sobretudo a versão radiofónica que Orson Welles fez desse livro, em 1938, e que assustou um país inteiro - jornalista desde criança, sempre me encantaram mais as histórias fantásticas que mordiam em pessoas reais. Marte, o planeta, e os seus habitantes foram uma Nova Guiné estranha e longínqua a que mais cedo ou mais tarde eu iria. A coisa começa a compor-se, como leram esta semana. Já lá há água e salgada. A partida dos robôs Oportunity e Curiosity (que nome mais empolgante) mandaram-me fotos. E, ontem, a tal notícia. Sem aprofundar, nem quero, sei que água quer dizer começo. Sinto-me o garoto que viu partir Diogo Cão e, adulto, embarcou com Vasco da Gama. Nesta religião eu reconheço-me totalmente (Ferreira Fernandes).

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