terça-feira, 22 de setembro de 2015

Hong Kong ainda não foi descolonizado? E Macau já?

Macau e Hong Kong com as actuais bandeiras
No passado domingo, o ex-director-adjunto do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado da China, Chen Zuoer, declarou em Hong Kong que ainda não tinha acontecido a descolonização na antiga colónia britânica e que isso está a "magoá-la". Aquele que é também o presidente da Associação de Estudos de Macau-Hong Kong da China continental frisou que Hong Kong estaria a ser levado por forças "localistas" e que o princípio de "Um País, Dois Sistemas" estava a ser prejudicado.
Larry So
Em Macau, o politógolo e comentador Larry So, do Instituto Politécnico de Macau, afirmou que o discurso de Chen Zuoer não se aplica a Macau porque a antiga colónia portuguesa é um "bom menino", "um aluno muito mais obediente, ou filho se assim quisermos, frente à China do que Hong Kong. Ninguém em Macau, nem mesmo os mais 'radicais', como se dizem, iriam fazer algo contra o governo e pedir a independência, ou dizer que gostariam de voltar a ser governados por Portugal". Considerando que as culturas, a forma de viver ou o conhecimento são diferentes entre as duas regiões administrativas especiais da China, muita coisa teria que mudar em Macau para que um qualquer oficial da China viesse fazer um discurso semelhante em público.
Chen Zuoer disse que um dos sinais de tal falta de descolonização era "haver objectos que deveriam estar em museus nas ruas", como a bandeira britânica de Hong Kong muito utilizada nas manifestações contra a China. Outro seria a falta de revisão de leis ainda da época colonialista.

Malta de Hong Kong a protestar contra a "chinesificação" do território
Chan Kin San, professor de Administração Pública na Universidade de Macau, afirmou, por sua vez: "Ao longo do tempo, o Governo Central quis deixar que o governo de Hong Kong resolvesse os seus problemas internos, mas actualmente, parece que considera que o governo de Hong Kong já não consegue resolver os problemas de forma eficaz, pelo que tomou mais medidas. Exceptuando o problema da habitação, podemos ver que o governo (de Macau) reage atempadamente a outras necessidades sociais. Comparativamente a Hong Kong, a divergência política é mais grave, o que faz com que a eficiência administrativa seja mais baixa, mostrando a imagem de que o governo de Hong Kong não consegue resolver os problemas sociais". Chan Kin San concorda com Larry So: nunca iria haver manifestações tão grandes em Macau como as da região vizinha.
Jason Chao
Para Jason Chao, uma das caras mais conhecidas das manifestações de Macau e também figura de relevo do movimento cívico e político Associação Novo Macau, esta falta de resolução dos problemas é o que leva Hong Kong a receber recados deste género, ainda que não necessariamente justos, segundo a sua perspectiva: "Esta é uma forma de divergir a atenção dos verdadeiros problemas da actual governação. Em ambos os governos, de Macau e Hong Kong, há problemas, e em vez de se focarem no assunto verdadeiro, que é a falta de democracia e da luta pelos direitos, apontam o dedo a alguns. Até em Hong Kong é difícil falar (de determinados assuntos), porque há diversas ideias políticas. Em Macau, há pessoas que gostam da autonomia, mas também temos uma grande proporção de pessoas submissas à autoridade do Governo Central".
E que dizer da existência de muita gente em Macau e em Hong Kong que não gosta dos seus conterrâneos da China continental? É algo "ridículo", defende Larry So, já que a maioria dos cidadãos das duas regiões é migrante da China continental. Então qual é o problema? "O governo britânico colonial interferiu e interfere mais e ficou mais tempo do que o português. Portugal, nos anos 1970, já estava a preparar-se para entregar Macau à China. É a chamada política colonial: os de Hong Kong são mais receptivos à cultura britânica do que os de Macau à portuguesa", explicou Larry So. "Hong Kong sofria com dificuldades económicas mesmo depois da transferência de soberania, em 1997, e só melhorou depois de 2003, portanto, uma parte das pessoas tem sempre saudades do ambiente antes da transferência de soberania. Em Macau, antes de 1999, o ambiente político e social era mais instável comparado com o tempo depois da transferência. Por este motivo, poucas pessoas em Macau preferem a época da 'colonização'", reforçou Chan Kin San. Quanto à acusação de que as manifestações em Hong Kong estariam a "magoar os dois sistemas", Jason Chao discorda: "Se virmos a Lei Básica de Macau, as coisas deveriam estar todas nas mãos das pessoas de Macau. É por aí que surgem as manifestações". Em relação à "deschinalização", termo usado por Chen Zuoer, Jason Chao também discorda, pois considera que a China e as regiões a ela pertencentes têm as suas próprias características.
Que Macau é um carneirinho para a China em relação a Hong Kong é um facto. Mas não é 100% verdade que em Macau ninguém - e não me refiro apenas aos portugueses - tem saudades dos tempos da administração portuguesa. Conheço pessoalmente demasiados casos, entre eles reformados, funcionários públicos, comerciantes e até mesmo taxistas, que atestam o contrário. Macau era muito melhor, mas de longe, nos tempos em que era português do que agora.

6 comentários:

Ivan Baptista disse...

Pá , os Britânicos ainda hoje teem o seu "império", é só ir lá para os lados de Gibraltar.
Hoje não sei como é, mas pelo menos há 20 anos, Gibraltar ainda tinha a bandeira Britânica .

Já ouvi dizer que a China um dia se iria dividir , haveria revoluções do tipo como aconteceu no tempo dos soviéticos.
Que a China não poderá mais escravizar a sua mão de obra
Que os Chineses preferem mais a liberdade ocidental e preferem viver em classe média como no ocidente..
Vi manifs nas tv em relação aos da província de Hong cong e disseram-me que a china um dia, mais tarde ou mais cedo, cederá ao estilo democrático ocidental .
Mas até hoje , parece que nada disso aconteceu

wind disse...

Um dia atrasada, devido a muito trabalho, desejo uma boa semana:)

FireHead disse...

Ivan Baptista,

LOL, lê lá isso que é para veres a quantas anda ainda hoje a hipocrisia:

http://bloguedofirehead.blogspot.com/2014/06/ai-portugal-e-que-era-colonialista.html

Quanto à China, tal não acontecerá porque o governo tem pulso forte. Os próprios chineses reconhecem isso e, custe o que custar a quem não queira admiti-lo, é uma das melhores coisas que o governo chinês faz. O pior é que ao fazê-lo sem conta, peso nem medida acaba apenas por "unificar" a China a 100%, homogeneizando-a, isto é, destruíndo as diferenças que existem entre os diversos povos étnico, cultural e linguísticamente diferentes do povo han, e mesmo entre o povo han há muitas coisas que estão a desaparecer aos poucos fruto do domínio do Norte (Pequim), como por exemplo o perigo pelo qual passa por exemplo a língua de Cantão, uma língua com mais de 2000 anos, logo muito mais antiga que a língua oficial que é o mandarim (dialecto de Pequim, com menos de 200 anos).

Em relação a Hong Kong, os revolucionários de lá não têm hipóteses nenhumas contra a China. Se a China lhes fecha a torneira, estão lixados. Acredita que a China de hoje em dia está muito mais tolerante do que nos outros tempos. Nestas manifestações dos guarda-chuvas amarelos, a China teve uma verdadeira paciência de santo e esperou que o governo de Hong Kong resolvesse o problema por si próprio. Se fosse noutros tempos, se calhar já teria havido um Tiananmen II.

FireHead disse...

Wind,

Ter muito trabalho é bom sinal, amiga! É sinal de que há trabalho. :P

Beijinhos e vai com calma. :)

KVRGANIVS NOSTRATORVM disse...

MACAU É MICROSCOPICA FACILMENTE SINAE RE-ENGOLIU

FireHead disse...

KVRGANIVS NOSTRATORVM,

Sim e a prova é que os portugueses ainda por cá andam, o português ser ainda uma língua oficial, o número de católicos cresce entre os chineses, a comida portuguesa é muito apreciada por cá, etc. Nada mal para uma terra que já foi "re-engolida" pela China. Nada mal mesmo.