sexta-feira, 2 de outubro de 2015

«A Rússia e o Vaticano estão cada vez mais isolados»


O jornalista José Miguel Encarnação, do semanário católico macaense O Clarim, entrevistou em Moscovo o fundador do Virtuous Leadership Institute (Instituto de Liderança Virtuosa), Alexandre Havard, um advogado russo nascido em França que trabalha com administradores de empresas, forças armadas e universidades espalhadas pelo mundo. 
"Não se trata de ensinar técnicas de liderança, de como manipular as pessoas, de como ser bem sucedido. Queria antes mostrar às pessoas o que é a liderança virtuosa. Tem como base a virtude, o carácter, a magnanimidade e a humildade. Magnanimidade enquanto grandeza e humildade enquanto serviço. A ideia era demonstrar que a liderança tem como objectivo alcançar a magnanimidade trazendo ao de cima a grandeza que há dentro de nós. Não tem a ver com sucesso", começou por explicar assim o conceito de liderança virtuosa. "Diz a Igreja Católica que se praticarmos as quatro virtudes cardeais (prudência, coragem, auto-controlo e justiça) somos boas pessoas. Acontece que a maioria dos cristãos não tem ideia do que é magnanimidade - a virtude da grandeza - considerando que basta apenas cumprir as quatros virtudes cardeais. Ora, a liderança deve ser um sonho na nossa vida, um sentido de missão, um desejo de multiplicarmos os nossos talentos e de actuarmos. No final de cada dia o meu instituto ajuda muitos cristãos a entenderem que não basta ser bom; temos de ser excelentes, magnânimos. Não esperarmos pelo Salvador - Esse já veio há mais de dois mil anos. O pensamento é: 'Eu tenho de ser aquele que vai mudar a humanidade, agora!' Temos talentos e temos que estar a par dos nossos talentos. Temos de agradecer a Deus pelos nossos talentos, pelo que devemos utilizá-los. Tem a ver com a dignidade e a criatividade de cada um", acrescentou dizendo que "Fomos criados para a grandeza, não para a mediocridade".
Considerando o contacto com diferentes culturas como algo muito positivo, pois "dá-nos uma visão ampla do mundo" e tornam-nos "culturalmente superiores", Alexandre Havard não deixa de criticar a existência de uma cultura global muito alicerçada nos Estados Unidos, "que impuseram ao mundo um tipo de cultura espiritualmente muito pobre. Uma cultura baseada no sucesso e no dinheiro a curto prazo. Não tem como missão espraiar a espiritualidade e os valores do Cristianismo, mas que é muito eficiente e, por isso, muito poderosa". Para ele, tanto o comunismo como o liberalismo reduzem o ser humano à insignificância e elogia Vladimir Putin por ter reabilitado o Estado russo após o fracasso do Boris Yeltsin, "destruiu a máfia, combateu a corrupção - ainda há muita mas vem diminuindo de ano para ano - e revelou qual a visão que tem para o mundo, na qual os Estados Unidos não podem ser os únicos a ditar as regras na esfera internacional. Hoje no Médio Oriente a Rússia tem uma palavra a dizer, apoiando o governo sírio no combate ao Estados Islâmico, que luta com armas fornecidas pelos Estados Unidos, o que fez reavivar o orgulho da nação russa". E defendeu a Rússia de hoje, "que promove determinados valores, como a tradição, a Igreja e a família. Não matamos ninguém do movimento LGBT, mas também não permitimos que façam propaganda nas escolas junto dos mais novos. Não prendemos por prender. As Pussy Riot só foram presas porque entraram numa igreja e atentaram contra a ordem pública. A administração Obama e os Estados europeus estão de mãos dadas com o movimento LGBT e por isso odeiam a Rússia. O mais curioso é que os actuais líderes europeus são quase todos ex-marxistas, ex-maoístas ou ex-trotskistas. Nos anos 70 e 80 (do século passado) amavam a União Soviética e agora detestam a Rússia. As mesmas pessoas que hoje escrevem coisas horríveis sobre a Rússia são as mesmas que escreviam coisas bonitas sobre a União Soviética. O mundo mudou. Depois do comunismo na União Soviética o mal passou, muito provavelmente, para os Estados Unidos. A Virgem Maria triunfou no nosso país. Nós que estudámos na Europa adorávamos os Estados Unidos, a sua estratégia, o seu poder, mas quando o comunismo acabou revelou-se que afinal os Estados Unidos não queriam destruir o comunismo, queriam destruir a Rússia, porque a Rússia é um adversário. Ronald Reagan, um cristão (ou melhor, um falso cristão porque era protestante), odiava o comunismo, mas adorava os russos. Depois dele, quem veio a seguir - especialmente os Bush - odeia a Rússia. Para eles a Rússia é o Diabo. Muitas pessoas da administração Obama odeiam a Rússia, porque esta tem outra visão que eles não entendem nem aceitam. Os Estados Unidos querem a democracia por todo o mundo, nos Estados islâmicos, na Ásia, e os russos são um obstáculo porque pensam de outra maneira. Deus quer que a Rússia e a Ásia pensem de outra maneira e isso é bom. A China e a Rússia não querem que haja um pensamento global para sempre. Enquanto os Estados Unidos e a Europa vão caindo em termos espirituais, a Rússia eleva-se. A Europa vai no sentido contrário ao Cristianismo, em direcção ao paganismo; vem negando as raízes do Cristianismo e dos valores por detrás da construção europeia. Por sua vez, a Rússia está a sair do túnel do comunismo em direcção ao Cristianismo. A questão não é onde estamos, mas para onde vamos. O Ocidente detesta a Igreja, a família, promove o puro individualismo e o movimento LGBT em nome da liberdade". De acordo com ele, Putin seria "reeleito com setenta por cento dos votos se as eleições fossem amanhã" porque "É uma personalidade muito atraente, é muito inteligente, muito esperto, tem um pensamento muito rápido, não é marioneta de ninguém. Por vezes os jornalistas ficam desarmados com as respostas que dá, pois conhece muito bem os dossiês. Não é como o presidente de França, o senhor Hollande, que é ridículo, uma marioneta. Não sabe falar, não sabe o que quer. O presidente Putin sabe o que quer e quando quer. Quando é preciso zanga-se e mostra que está zangado. Não é como no Ocidente em que está sempre tudo bem. Depois é um desportista, foi campeão de judo em São Petersburgo quando era novo. É disciplinado, não se deixa engordar como os líderes do Ocidente. Claro que isso fragiliza os adversários. Quem poderá gostar do senhor Hollande com aquele aspecto? Um presidente tem que ser activo e não um boneco como acontece no Ocidente. Tem de haver modelos que sirvam de referência para a população em geral e para os mais novos em particular. Quando conseguirmos vencer a corrupção a Rússia vai voar bem algo", garantiu.
Quanto ao conflito da Ucrânia, Alexandre Havard não teve problemas em apontar a culpada: a NATO. "A situação na Ucrânia foi provocada de forma totalmente artificial pela NATO, por razões meramente geopolíticas. Quando o comunismo acabou a NATO disse a Mikhail Gorbachev que não iria expandir para leste. A partir do momento em que o Pacto de Varsóvia terminou, a NATO também deveria ter deixado de existir. A NATO foi formada para combater a União Soviética e não para combater a Rússia. Com Bush tudo se alterou. A NATO ganhou força e procuraram conquistar culturalmente o mundo. A NATO entrou na Polónia, nos Balcãs e começou a expandir-se para a Ucrânia. Acontece que a Rússia sempre disse que a Ucrânia deveria ficar de fora das intenções da NATO, uma vez que nós, russos, também somos ucranianos. Todos os russos têm raízes ucranianas. Todos nós nascemos na Ucrânia. Só no século XIII é que os ucranianos partiram, da zona de Kiev, para nordeste. O governo americano, em conjunto com o movimento LGBT, tem como missão declarar guerra à Rússia, à nossa tradição e conservadorismo".
Alexandre Havard falou também da crise dos refugiados: "A geopolítica dos Estados Unidos para o Médio Oriente é totalmente criminosa. São mortos anualmente cem mil cristãos no Médio Oriente devido à sua acção. Há um 'complot' internacional para matar cristãos. A razão para não deixarem a Rússia resolver o problema é porque são anticristãos. Pergunte a opinião das pessoas e dos bispos que ainda lá estão e elas dizem-lhe o que pensam sobre a Rússia. Os Estados Unidos estão a destruir e a torturar esta gente. No governo dos Estados Unidos ou são malucos ou simplesmente criminosos. Bashar al-Assad está a ser perseguido porque não quis cumprir as regras que lhe foram impostas. Os países têm o direito de não quererem ser marionetas dos Estados Unidos. Espero que a Rússia seja bem sucedida, pois temos cerca de vinte milhões de muçulmanos dentro do nosso território. Imagine que os muçulmanos extremistas, do lado de lá da fronteira, faziam chegar armas às nossas comunidades, acompanhados por discursos de ódio... Os muçulmanos russos não são extremistas, mas podem ser fanatizados. Se não fizermos nada agora, podemos vir a sofrer as consequências".
Por fim, um comentário sobre o Papa Francisco e as relações entre o Vaticano e a Rússia: "O Papa Francisco está muito bem ciente desta realidade e não parece nada satisfeito com o facto dos Estados Unidos lhe dizerem como deve lidar com o presidente Putin". Afirmando que tanto o Vaticano como a Rússia "estão cada vez mais isolados", Alexandre Havard defende que ambos os Estados um dia chegarão a um entendimento: "A Rússia é o único país com poder que defende os valores do Cristianismo de forma oficial, enquanto os Estados Unidos os destroem. Há notícias que apontam para um encontro entre o Papa e o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, já no próximo ano, talvez na Finlândia". "As ideias liberais e o movimento LGBT têm contribuído para a destruição dos valores do Cristianismo, sem os quais não há líderes virtuosos. Ainda assim a situação será mais dramática na Europa do que nos Estados Unidos, pois estes ainda têm uma larga franja da população que é cristã e luta pelos seus ideais", disse ainda.
Na mouche! Ora aí está mais um homem de H grande! Um verdadeiro líder virtuoso!

4 comentários:

wind disse...

Bons dias de descanso:)

FireHead disse...

Bom fim-de-semana. :)

Ivan Baptista disse...

Fiquei surpreendido com a acção da Rússia na Síria ! Só demonstra que os maçónicos USA/EU, já não são o que eram.
Deixa lá que nos states depois do Obama, não veem de lá coisa melhor, naquele pais só tens duas alternativas e ambas pensam da mesma maneira nas relações externas no mundo.
É um pouco como aqui, esquerda e direita é = a Maçons. O resto é circo.

FireHead disse...

Eu acho que isso só demonstra mesmo que a Rússia não está aí para papar grupos como fazem os outros que só ficam pelas palavras e condenações. Para os EUA meterem-se militarmente teria mesmo que haver mais um 11 de Setembro ou então interesses encalacrados no palco de guerra.

E permite-me discordar de ti: eu espero e desejo que o Donald Trump vença as eleições e se torne presidente americano. Se ele é maçon, eu duvido, pois ele até é protestante calvinista, mas o que interessa mesmo para os EUA é que ele é um patriota anti-islâmico e nacionalista que quer acabar com o Jus Solis e expulsar os imigrantes ilegais.