domingo, 2 de agosto de 2015

Quando uma relação aberta tem um preço


Durante a faculdade, passei algumas noites maravilhosas a namorar com um poeta de cabelos compridos. Passei algumas semanas na brincadeira com um estudante de religião carinhoso e divertido. Cheguei até a sair por pouco tempo, se bem que inconscientemente, com um estudante do ensino secundário. (Desde quando os jovens de 17 anos têm barba?)
Isto é o que se faz na faculdade. Sem a prisão das rotinas da infância e livre dos julgamentos e preconceitos das pessoas que nos conhecem melhor, exploramos e experimentamos, testamos novas ideologias, novos pontos de vista. Novas pessoas. 
Assim sendo, experimentei de forma livre e feliz. Mas a minha situação era diferente da maior parte das pessoas: eu também tinha um namorado sério no momento. Tão sério que vivíamos juntos. Tínhamos dois gatos. No entanto, eu não estava a quebrar nenhuma regra. Nós tínhamos uma relação aberta. 
Foi um desastre completo. 
Conheci o meu namorado em Introdução à Filosofia. Ele tinha o cabelo escuro, era encantador e estranho, mas de uma forma enternecedora, um daqueles rapazes apaixonados e fluentes que vivem a vida em superlativos. A música que ele ouvia era a melhor de todas as músicas. Os livros que lia estavam no topo da literatura. Ele próprio iria ser o maior filósofo da sua geração. 
Eu sei, eu sei. Mas eu tinha apenas 18 anos! Não conseguia resistir, e continuo a não conseguir, a um pensamento perspicaz, a uma gargalhada estridente e a uma grande cabeça. Além disso, o meu namorado era generoso com as suas grandes convicções: as pessoas de que se rodeava estavam destinadas à grandeza também. Amada por ele, sentia-me envolta em glória.
Inseparáveis desde o início, explorámos o novo mundo da nossa universidade em conjunto, assistindo a leituras, peças de teatro e concertos. Comíamos tartes e sushi. Bebíamos gin e limonada. Passei o Verão na sua cidade natal, deixando-me enfeitiçar pelo seu pai cortês e pela sua atenciosa mãe. De regresso à universidade no Outono, fomos viver juntos, mobilámos um apartamento a cair aos bocados com cartazes de música e móveis de lojas em segunda mão.
A vida doméstica era um estímulo. Os gatos eram um estímulo.
Ou melhor, não eram. O meu namorado estava decidido a viver a sua vida de acordo com princípios intelectuais rigorosos e, para ele, a liberdade pessoal era primordial. O amor não poderia exigir restrições, reclusão ou privação. Ele dizia que mesmo estando a planear um futuro em conjunto, nós deveríamos sempre permitir um ao outro fazer o que nos apetecesse, incluindo sair com outras pessoas.
Uau, desculpa, o quê? Eu era de uma pequena cidade do Illinois. A minha ideia de romance era o mais convencional possível, envolvia o meu namorado e eu "sentados no ramo de uma árvore a beijarmo-nos", como diz a canção infantil. Primeiro vem o amor, depois o casamento, e assim por diante.
Essa canção infantil é também uma promessa: a exclusividade leva à segurança, aos votos, ao "felizes para sempre". Não havia espaço na nossa árvore para outras pessoas.
Ou havia? Eu já não estava no recreio da escola. Era suposto estar a explorar, a experimentar, a testar novas perspectivas. Eu não era filósofa como o meu namorado, mas estava a estudar Literatura Inglesa, incluindo Percy Bysshe Shelley.
Tal como ele escreveu: "Ao contrário do ouro e do barro, o verdadeiro amor, dividido, não diminui."
Shelley protestou contra a moralidade vigente que exigia aos amantes casarem-se e serem monogâmicos, e, assim, percorrerem "a vasta estrada do mundo.../ Com um amigo acorrentado".
Um amigo acorrentado. Parece divertido.
Eu não tinha qualquer desejo de algemar alguém a mim, principalmente não a pessoa que eu mais amava. Eu não queria admitir - sendo possessiva, exigindo fidelidade - que o meu amor era menos do que um V maiúsculo, Verdadeiro. Se era necessária uma relação aberta para provar como eu amava o meu namorado, não me importava de aceder.
Assim partimos para a nossa grande aventura romântica.
O poeta de cabelos compridos e eu tínhamos uma aula juntos. Ele era sincero e sensível. Escrevia poemas em folhas rasgadas de blocos de apontamentos e deixava-os à nossa porta no meio da noite. A poesia dele era terrível, mas era sobre mim, o que a melhorava imensamente.
O meu namorado estava divertido, talvez um pouco impressionado com o facto de eu ter inspirado os versos, mas basicamente indiferente. A atitude dele parecia ser: vai divertir-te.
Assim fiz. Mas não em demasia. Eu continuava presente, ainda era uma boa e carinhosa namorada. Só que, às vezes, eu estava noutro sítio, com outra pessoa.
Depois, a atitude do meu namorado mudou. Ele começou a emergir do seu estudo com perguntas quando eu chegava a casa. Quem era esse sujeito? Qual é o curso dele? De onde é que ele é? O que é que ele leu? É inteligente?
As perguntas transformaram-se em críticas. Aquela poesia era horrível. A caligrafia dele também não era assim tão bonita. Olha para aqueles "tês".
Então, o meu namorado teve um vislumbre do rapaz, ao que se seguiu uma indignação sem limites. Estás a gozar comigo com aquele cabelo? Ele não parece sensível; parece obstipado! Porque é que estás a perder o teu tempo com este palhaço?
Era exactamente o que eu estava a fazer: a perder o meu tempo, de uma maneira muito agradável. Mas não valia os interrogatórios do meu namorado e a sua dúvida, a sugestão implícita de que ao escolher mal eu me tinha tornado menos interessante aos olhos dele.
Assim, corri com o poeta e perguntei-lhe se precisávamos de repensar os nossos termos.
Claro que não. Não havia nada de errado com os nossos princípios, somente com a maneira como eu os tinha implementado. Eu era livre para continuar a ser livre. Apenas teria de o fazer melhor. Ou uma coisa do género.
Eu segui em frente. Passei algum tempo com o meu amigo que estudava religião. Com o meu estudante liceal barbudo. Com uma mulher que vivia no nosso edifício.
Surgiu um padrão. A princípio, o meu namorado reagia com indiferença. A seguir ficava levemente curioso. Depois, subtilmente crítico. Por fim abandonava a subtileza.
Acabava sempre da mesma maneira: ofendido, incrédulo e depreciativo com os meus interesses românticos pelas suas falhas óbvias, e comigo pela minha aparente cegueira em relação a elas. Ele estava tão convencido da sua própria verdade e era tão hábil na defesa das suas posições que contra-argumentar era sempre um exercício fútil. Assim, eu capitulava e abandonava cada novo interesse amoroso, causando muita dor imerecida.
Como é que estavam a evoluir as aventuras do meu namorado no amor livre? Não estavam. Ele não saiu com qualquer outra pessoa enquanto estivemos juntos. Porquê? Nunca me deu uma resposta clara. Muito ocupado. Muito exigente. Eu sentia-me como o alvo de uma piada rebuscada. A liberdade romântica era um princípio dele, mas, no entanto, eu era a única a vivê-la.
A meio do nosso terceiro ano, ele mudou-se. O peso de outras pessoas não tinha feito que o nosso ramo se quebrasse, mas não tinha ajudado certamente. Não estando já subjugada pela sua argumentação extremamente persuasiva a favor das relações abertas, eu percebi porque tinha ele reagido como reagiu.
Ele estava com ciúmes. Tinha medo de me perder. Eu achava que estava a viver segundo os seus princípios, mas, na verdade, eu só tinha experimentado um dos lados de uma relação aberta - o lado divertido e fácil. Como teria eu reagido se tivesse sido ele o único a andar na brincadeira? Suspeito que não muito bem.
Parei com os testes e a experimentação. Não queria que ninguém se sentisse ameaçado ou inseguro. Eu não precisava de uma multidão. De agora em diante, iria limitar-me a um amigo de cada vez. Sim, as correntes são pesadas, as correntes enferrujam e desgastam, mas também nos unem e mantêm-nos seguros.
Depois de me formar, namorei, sucessivamente, um sueco que vivia em Itália, um colega editor no meu primeiro emprego de verdade e um homem da publicidade insatisfeito. De todas as vezes o amor floresceu. Depois desvaneceu-se. Excepto o meu amor pelo homem da publicidade insatisfeito. Casei-me com ele e o nosso amor está ainda muito vivo.
Todos os amigos em meu redor estavam a fazer o mesmo. A encontrar um parceiro. A assentar. A casar. A gravar a sua fidelidade em alianças e a proclamá-la em votos. A domesticidade era estimulante. O "felizes para sempre" era estimulante.
Ou não. Assisti e ouvi alguns desses amigos a reconhecerem como o fascínio desaparece. Como a realidade pode embotar a felicidade. Os olhos deles começaram a vaguear ou os seus corações. Eles traíram. Ou separaram-se. Ou traíram e depois separaram-se. Ou mantiveram-se fiéis e casados, mas agora sentem-se encurralados e paralisados. Estão todas à minha volta, essas pessoas que disseram "tu e mais ninguém" e falavam a sério. Até que deixaram de o fazer.
De volta a Shelley, que escreveu: "Eu amo o Amor - embora ele tenha asas,/ E tal como a luz pode fugir". É triste, mas praticamente diz tudo. 
Eu tinha fugido de uma relação aberta, optando pela segurança de um círculo fechado. Mas os destroços das relações monogâmicas estão todos à nossa volta. A noção de que elas são de alguma forma mais estáveis do que as abertas é uma ilusão. Não porque a monogamia seja insegura, mas porque todo o amor romântico o é. É poderoso e emocionante. É também aterrorizante. 
O casamento não é o lugar para experimentar e explorar, como eu fiz na faculdade. Mas mesmo aqui, o amor romântico é mais complicado do que na antiga canção infantil. Continua a ser uma experiência - de confiança, compreensão e comunicação. Como qualquer experiência pode falhar. Não há garantias. Como mulher, e agora como mãe, percebo que dar o meu coração a apenas uma outra pessoa pode ser a maneira mais arriscada de amar de todas. 

Eliza Kennedy, autora do romance "I Take You"

10 comentários:

wind disse...

Muito bom!

FireHead disse...

Um fenómeno bastante actual. Com pensamentos destes, mais vale não assumir compromisso nenhum e morrer de velho sem ninguém ao lado. :)

Anónimo disse...

não entendi nada.
Ela renegou o passado promíscuo, ou está lamentando
ser, hoje, monogãmica?

Afonso de Portugal disse...

Acabou por ter bastante sorte! Eu jamais aceitaria uma mulher com o passado dela...

FireHead disse...

Anónimo,

Olha, por acaso também não sei. Se eu entendesse as mulheres, tudo seria tão diferente... :)

FireHead disse...

Afonso de Portugal,

É por isso que há muitas mulheres que evitam falar do seu passado. Também há homens que o fazem, portanto...

wind disse...

Ó Homens:)
Ela percebeu que tinha de ser monogâmica:)

FireHead disse...

Wind,

Não é isso que qualquer pessoa acaba por descobrir com o tempo? :)

wind disse...

Nem todas. Há pessoas que têm relações abertas, como ela relatou.
Eu nunca conseguiria isso :)
Tal como ela ao fim de um tempo percebeu que não conseguia e entendeu que mesmo casando e vivendo as dificuldades de um casamento, o tentar entender o outro, viver com o outro, etc, é preferível:)

FireHead disse...

Não sei. Pela minha experiência, e pelo que vejo nos outros, quanto mais o tempo passa, mais as pessoas desejam agarrar-se apenas a uma pessoa. Não me digas que uma pessoa com 50 anos ainda vai achar piada às constantes mudanças de parceiros?

Vejo muito isso principalmente nas mulheres. Quando são jovens, tipo antes dos 20 e até aos 30, julgam que podem e devem experimentar o que conseguirem arranjar; depois dos 30 já dão numa de quererem encontrar o homem para a vida toda. O problema é que depois também há muitos homens que se importam com o passado sexual das gajas... e vão em busca das menos rodadas.

Isso é como em tudo, depende sempre das pessoas. Não acho piada nenhuma a esta coisa das relações abertas. Para mim é preciso haver sentimentos envolvidos, caso contrário nada feito.