quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Médica de Macau recusada em Macau

 
Mais um, a juntar-se a tantos outros, episódio do Macau sã assi (Macau é assim): uma médica macaense, licenciada pela Universidade de Coimbra com uma média de 19,6 valores após 13 anos de formação, foi desrespeitada e chumbada quando pretendeu entrar no Hospital (público) Conde São Januário! O governo da RAEM (Região Administrativa Especial de Macau) já chegou a afirmar que Macau precisa de mais 529 profissionais da Saúde até 2016, sendo muitos deles contratados em Portugal, conforme promessa do secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, mas parece que o director dos Serviços de Saúde (SS), Lei Chin Ion, é quem verdadeiramente manda e decide quem deve ou não ser contratado.
Os SS pediram à rapariga para fazer uma exame de equiparação à sua especialidade médica, mas foi-lhe depois informado que os mesmos SS "não dispunham de qualquer posto de trabalho adequado e que não precisavam de profissionais especializados". "Achei tudo muito estranho. Então o governo diz que precisa e que vai contratar e agora eu estava ali a oferecer o meu trabalho, e achar que estava a fazer a coisa certa, e eles dizem-me que não?", perguntou a macaense, que optou pelo anonimato e insistiu até que acabou mesmo por ser chamada para um exame de equiparação apesar do decreto-lei n.º 8/99/M de 15 de Março que está em vigor afirmar que os cursos tirados em Portugal são "considerados equiparados" aos de Macau. Ela teve que entregar cinco currículos dela escritos em inglês, visto que não sabe ler nem escrever chinês, e 11 meses depois, foi chamada a exame... realizado em cantonês e inglês. "Quer dizer, se o português é uma das línguas oficiais, como é que ninguém falava português (para além duma intérprete escolhida pelos SS)?", voltou a perguntar. "Uma má tradução, uma cara de gozo, tudo me pareceu estranho".
O resultado do exame? 9,5 valores na prova prática e 9,3 na teórica. "O meu currículo vale 9,7 em Macau? Quando no meu exame em Portugal tive 19,6?", insistiu. "A minha dignidade pessoal e profissional são muito mais importantes que qualquer avaliação truncada, sabe-se lá por que razões. Fui formada, académica e profissional numa instituição reconhecida internacionalmente pelo seu mérito, (...) levarei o caso até às últimas consequências para exemplo de todos os jovens locais como eu, que saíram de Macau à procura de qualificações que aqui não existem e quando pretendem regressar não são aceites, sobretudo desta forma injusta", terminou.
Pois é, o governo da RAEM diz que quer incentivar o regresso dos filhos da terra e depois é isto. Ser trilingue também já de pouco adianta desde que uma das línguas seja o português em vez do mandarim. Não sei onde é que está a novidade aí para haver tanta malta indignada aqui em Macau com isso. Tenho amigos macaenses que são médicos lá em Portugal, que falam o cantonês, possuem o BIR (Bilhete de Identidade de Residente) e que também gostariam de voltar para cá para trabalhar no hospital mas que não estão aqui porque simplesmente não os querem. Quem é que ainda não percebeu que o futuro de Macau não conta com os macaenses, principalmente os de ascendência portuguesa, mas sim com a malta do outro lado de lá da fronteira, pois afinal de contas Macau já faz parte da República Popular da China há 15 anos e os chineses fazem desta terra o que bem entenderem?

2 comentários:

Anónimo disse...

Realmente nada animador, para quem como eu estava a pensar tentar arranjar emprego em Macau, pelo que vejo é cada vez mais difícil, para um Português arranjar emprego em Macau, ainda por cima sem ligações ao território. Na minha Área construção Civil, todos os anúncios que vejo pedem, Cantonês e Inglês, ainda por cima sendo Técnico, parece-me que devo ter que zarpar a outros destinos.

Cumprimentos

Miguel Oliveira

FireHead disse...

Ainda por cima você não tem BIR ao contrário do que já cá estiveram e que decidiram vir para cá de novo. É mesmo muito difícil assim. Sugiro outras paragens, de preferência mais perto de Portugal.

Abraço e boa sorte.